Uma casa, uma rua

Simone Maria Rodrigues Soares

Casa número 255, numa rua que ficará para sempre em minha lembrança. Quem passar por aquele endereço hoje encontrará um grande vazio onde há poucos dias havia uma bela casa, solidamente construída na década de 20 do século passado. Era a casa de meus avós. A casa de meu avô Papai Chico e de minha avó, Mãe Neném. Era a casa de minhas aventuras de criança. A casa do pé de pitomba caindo sobre a cisterna, carregadinho, a casa dos doces sapotis, colhidos no pé.

Quantas histórias foram vividas ali! Fecho os olhos e me vejo criança recebendo os bombons que meu avô me trazia, com os mimos para sua primeira neta. Tomava-me em seu colo e me embalava naquela rede, que estava sempre ali, a oferecer descanso e aconchego.

Seu carinho, no entanto, seria por pouco tempo, pois, aos seis anos, eu teria ali minha primeira vivência com a morte, quando vi seu corpo sendo velado na sala de visitas da casa.

Ficou-me a lembrança da expressão triste das pessoas e do vazio de depois. Minha avó e minhas tias passaram a vestir preto, como era costume na época. E a vida continuou. E a casa passou a ser “a casa de Mãe Neném”.

Como era doce a minha avó! Seus cabelos brancos e lisos, cortados retos e curtos, com sua marrafa a prendê-los atrás, são a minha referência das avós antigas. Lembro-me dela sentada ao pé do rádio, quase sempre com um livro nas mãos, pois era seu costume fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Lembro de seu hábito de tomar chá todas as noites, bem doce, para certamente adoçar seu sono e seus sonhos. Até que veio aquela tarde triste de um outubro como este e levou-a ao encontro de seu grande e inesquecível amor. Ela se foi suavemente, tal como sempre viveu. Ainda hoje busco entender o que queria me dizer minutos antes de nos deixar para sempre: suas mãos pegaram as minhas, seus olhos fitaram os meus, mas a sua voz já não se escutava mais. E eu fiquei com essa pergunta sem resposta para o resto de meus dias.

Naquela casa passei a morar quando meus pais se transferiram para Pernambuco, não podendo acompanhá-los por motivos profissionais. De lá, só saí para me casar, mas continuei tendo nela meu ponto de apoio durante todo o tempo em que morei na cidade.

 Acho que, de tanto presenciarem histórias, de tanto ouvirem conversas e confidências, as casas antigas têm alma. E nós sentimos saudades delas. De cada canto, de cada recanto. Da cadeira de balanço à porta da varanda, em que recebíamos a brisa que enganava o calor das tardes quentes. Da calçada para onde os vizinhos vinham à noite se refrescar e se inteirar das novidades. Sim, elas têm alma, e nós sentimos saudades.

Daqui a alguns meses outro prédio será erguido em seu lugar. Outras histórias acontecerão. Mas em nossos corações ficarão para sempre as nossas histórias, as nossas saudades, as nossas lembranças…

Simone Maria Rodrigues SoaresEscritora

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