Diógenes da Cunha Lima

Saint-Exupéry fez da vida um exercício de sedução, entretanto, nunca foi um sedutor, um Dom Juan, que perde o interesse pelo objeto tão logo haja a conquista.  Não sabe perverter como o bíblico demônio sedutor.  Diferente do donjuanismo, ele faz permanecerem os laços, o seu comprometimento ético.

Menino, conquistou a preferência de sua mãe entre os irmãos. Estes são também por ele encantados. As muitas cartas a sua Marie são repetidas cantigas de amor. O pedido permanente de dinheiro seria apenas consequência.

Os seus sobrinhos são embalados com canções de ninar, estórias e cantos infantis. Ainda hoje, pelo menos um deles, François d’Agay recorda esses tempos com ternura.

As amizades femininas e o amor das mulheres são para ele necessários e naturais como o ato de respirar. Mais que atraente, homem fascinante, alto (1.84m), forte, elegante em ser e com a palavra, voz de barítono, aristocrata. Um verdadeiro príncipe nunca deixa de cativar as mulheres, certas e incertas, conselheiras e aconselháveis, para toda a vida. Sabe despertar e manter a curiosidade feminina, atraindo-as pelos detalhes motivadores, por insinuações sutis, truques de mágica, invenções apaixonantes.

A sua primeira paixão foi Louise de Vilmorin, uma soprano que com ele fazia duetos. Era nobre, linda, intelectual, liberada, volúvel e… inconsequente.  Saint-Exupéry, como prova de amor, dá-lhe de presente um anel de safiras, joia da família. Louise teve outro namorado, um endividado. E vende o anel para pagar a dívida… Apesar de tudo, Louise é imortalizada como personagem, Genevieve, em Correio do Sul. A bela, muito depois, vai conquistar outras personalidades como André Malraux e Orson Welles.

A prima do escritor, Yvonne de Lestrange, incentiva-o e dá-lhe conselhos. É quem o apresenta a André Gide. Dentre outros, aconselho-o a deixar Consuelo, a infiel.

Vinte mulheres, jornalistas, conferem anualmente uma das mais altas premiações da França. Com seu livro Voo Noturno, Saint-Exupéry é agraciado (1931) com o Premio Fémina.

Diplomata nato, seduz para a civilidade mouros do Saara, guerreiros indomáveis. Os seus camaradas de aviação reconhecem-lhe o carisma, a coragem, a confiança, a criatividade, prestante solidariedade. Guillaumet e Mermoz são os mais próximos, mas todos os outros aviadores pioneiros nele veem o amigo a quem respeitam e com quem sintonizam.

Quando não tinha as condições de idade exigidas para pilotar, quer voar para servir à França derrotada. E convence o filho do presidente Roosevelt a recomendar ao comando militar o seu engajamento. Essa última sedução o leva à morte.

Deixou o Pequeno Príncipe para a todos seduzir.

Diógenes da Cunha Lima – Escritor, Poeta e Presidente da Academia de Letras do RN

Ponto de Vista

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