UM PEQUENO CONTO GÓTICO – José Delfino

UM PEQUENO CONTO GÓTICO –
Por lá as convenções do tempo são tão repetitivas que quase passam despercebidas. As quatro estações do ano estão sempre circunscritas a períodos de seca ou cheia acompanhadas de um calor inclemente. O sol nasce de madrugada. Sempre escurece à tardinha. Folhas secas , emburradas, caídas nos chão dos parques o ano inteiro dão a impressão de um eterno outono.
Onde os dois reinavam imperava a paz. Viviam sós . Aposentados, passavam seus dias em quietude e silêncio. Ruídos só do latir dos cães nas horas de impaciência . Ou o som da buzina de um carro que o vento trazia de longe, uns dois quilômetros das bandas da Hermes da Fonseca. O casarão, construído na base de um fundo de saco dava pra três ruas . Em frente um solitário terreno baldio esquecido pela prefeitura. Só ia ali quem tinha notícia.
Quando ele voltou da rua , a tarde estava na metade. O temporal ainda se formando nas nuvens à espera da hora de desabar sobre o chão e diminuir um pouco o ar abafado. Ou, nunca se sabe, afogar os infortúnios sem cura.
Ultimamente , algumas coisas pareciam estar andando errado. O certo seria dizer que certos fatos estranhos estavam acontecendo . A ausência dos amigos mais chegados virou rotina , por exemplo. E os filhos que não apareciam mais.
Ao entrar em casa começou de novo aquela sensação esquisita. Cruzou o portão olhou à esquerda e viu o jardim em petição de miséria. No local onde as crianças costumavam jogar bola e pegar cobreiro no corpo, o chão revolto , a grama crescida , entremeada de ervas daninhas . Impossível. Semana passada ele tinha podado as plantas e usado o cortador de grama com afinco.
Deu um oi pra ela e veio aquela vontade de tomar um Manhattan com três gotinhas de angostura, pra relaxar. A vontade, como por milagre, desapareceu.
Como “estão aparecendo fantasmas no jardim”? “Meninos brincando e dois adultos a supervisioná-los” , aqui , dentro de casa? E não dão a mínima pra você como se fossem cegos e surdos ? Como “ melhor mudarmos daqui” ? Coisa nenhuma . Almas do outro mundo existem , dizem alguns , mas não acredito . Aquele papo furado que somos um corpo físico que armazena uma aura energética, uma consciência, algo que não morre, o tal “eu” essencial. Que a casca uma hora estraga e se decompõe. Continuam por aí, sem a casca, em forma de energia. Não ria , estou falando sério. Vamos colocar uma certa lógica nisto . Quem sabe , seriam entidades . Fantasmas que têm consciência e interagem com o meio. Geralmente de pessoas que já se foram. Daí que quando você disse que quis tocá-los a sua mão atravessou o corpo de um deles . As entidades têm consciência, tem inteligência, e respondem quando perguntamos “Tem alguém aí?” ao contrário do que você afirma. Não devem ser entidades, então. Seja o que for eles estão apenas se divertindo. Relaxe. Eles enxergam e parecem nos ignorar. Ou não escutam. Usualmente usam ambientes elétricos carregados para se manifestar . Não aparecem quando os invocamos. Pelo menos não quando eu estou em casa . Não , nada disso. São normalmente humanos ou animais que morreram. O fato de estarem jogando bola sem dar uma mínima bola pra você , corrobora essa teoria .
Foi quando ouviu-se o som estridente de um apito . Que zoada é esta no jardim ? Ei , o que vocês estão a fazer aí ? Vamos , meninos . O treino hoje não vai demorar muito porque parece que vai chover . Ele gritou de longe .Vamos parar com isso. Esta é uma propriedade privada . É, eles não nos ouvem ou fazem que não nos notam . Ele lhe falei . Vou até lá por tudo em pratos limpos. Você vai ver .Meu Deus , eles não dão a mínima atenção para o que ele diz . O seu corpo atravessa os corpos deles . Bem que eu disse , são almas de outro mundo.
Ari, estou sentindo alguma coisa no ar e não sei bem dizer o que é. Eu , também , Vicente , melhor irmos embora . Meninos , vamos parar o jogo porque vai cair um temporal . Ari , uma pena não podermos mais ocupar a casa. A família a vendeu a preço de bolo. Então você não sabe da história ? Ano passado a dona da casa teve um câncer de mama e morreu. O marido dela , que tinha tido um idêntico bem pouco antes , inconformado e em desespero resolveu por fim a tanto sofrimento com um tiro de 38. Morreu no mesmo instante . Não deve ter nem ouvido o som do estampido no céu da boca . A casa agora vai virar um restaurante chique. Você parece que não lê jornal.
José Delfino – Médico, músico e poeta.
As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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