TRÊS MULHERES FASCINANTES –

O fascínio é uma propriedade feminina. Quantas mulheres exercem a atração sedutora na literatura, na ciência, nas artes. Na atualidade, destaco Nélida Piñon, Claudine Gay e Annie Ernaux.

O Brasil, a Galícia, a Espanha e a literatura perderam recentemente Nélida, aplaudida em tantas línguas.

Por duas vezes tive o privilégio de conversar com ela. Dizia-se que era uma escritora difícil, complexa, mas encontrei seu jeito simples, sedutora do dizer, sempre ensinando. Lembrei da sua brasilidade anunciada no seu discurso de posse na ABL. Havia afirmado ser uma brasileira recente, mais que as palmeiras imperiais trazidas por Dom João VI.

Como seus pais, ela sentia-se desembarcando da Galícia. Acrescentei que a língua galega tem forte presença entre nós. Brincando, pronunciei “vixe, Maria” em vez de “Virgem Maria”, e que pedia um copo “D’auga” quando estava com sede. Ela afirmou que a língua portuguesa era seu pouso e sua graça. Português e Galego seriam dois rios que corriam para ela.

Nélida ganhou em 2005 o Prêmio Princesa das Astúrias, também conferido a escritores do porte de Jean Rulfo e Paul Austin. Depois, merecidamente, por seu trabalho ganhou a cidadania espanhola e também lhe foi conferido o prêmio denominado, como o seu colega, Jean Rulfo.

Autora de livros como “A Casa da Paixão” e “Vozes do Deserto”, em prosa poética. Presidiu a Academia do Petit Trianon com maestria. Certa vez, indagada por que a literatura brasileira não teria vigência planetária, respondeu que o Brasil não participa do mundo ocidental.

Claudine Gay, negra, conseguiu um feito notável: Ser eleita presidente da Universidade de Harvard. Antes, havia sido reitora da faculdade de artes cênicas da Instituição. Ela publicou estudos sobre as desigualdades sociais, inclusive do mais rico país do mundo que a acolhera, os Estados Unidos da América.

Notável também, é filha de imigrantes do Haiti, o país mais pobre do Continente.

Brilhou na FLIP de Parati, a referenciada Annie Ernaux, escritora francesa, ganhadora do prêmio Nobel de literatura deste ano. Como Claudine, tratou das desigualdades, notadamente de que sofrem as mulheres. A Academia Sueca considerou que ela descobre as raízes, alimento das limitações coletivas da memória pessoal. Além disso, a entidade reconheceu a força libertadora da sua escrita.

Ao receber a homenagem, afirmou que pensava orgulhosa e ingenuamente em escrever livros, tornar-se escritora, escrever sobre camponeses sem-terra, trabalhadores, pequenos comerciantes, enfim, pessoas discriminadas. Acrescentou que no meio intelectual ocidental consideram inexistentes os livros escritos por mulheres. Ela própria entendia que sua voz de mulher era a de trânsfuga social.

Na vida cultural, Annie Ernaux é reverenciada, com justiça, em muitos países.

Imagino que você, leitor, poderia escolher três outras mulheres fascinantes.

 

 

 

 

Diogenes da Cunha Lima – Advogado, Poeta e Presidente da Academia de Letras do RN

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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