TRAVESSÃO –
Estou finalizando uma especialização. Para isso, preciso escrever um artigo científico. Escolhi o tema. Li alguns livros sobre o assunto. Fiz levantamento bibliográfico. Escrevi a primeira versão. Enviei para a professora orientadora.
Alguns dias depois nos sentamos para avaliar a escrita e o conteúdo.
Igual à IA?
Frases curtas são mais fáceis de entender, por isso as uso. Como a IA também…
Imediatamente lembrei de meu esposo falando sobre o uso de detectores de IA e de como os textos dele sempre ficam no limbo, como se fossem escritos por inteligência artificial. Se atualmente escrevemos bem, usamos corretamente a gramática e temos fluidez de pensamento, não fomos nós que escrevemos. Não pode ser humano! Comentei com ele que uma amiga da época do mestrado estava revoltada porque não podia mais escrever “é crucial”, já que a IA usa muito esse termo. Ela me perguntou:
Diante da conversa com minha orientadora, achei CRUCIAL fazer uma busca dos termos mais usados pelas (no plural!) IA e encontrei:
“É crucial” (eu uso!)
“É fundamental” (eu uso!)
“É imperativo” (uso pouco, porque lembro de Star Wars – não me perguntem como associei as duas coisas, mas na minha cabeça vejo Darth Vader!)
“No entanto” (eu uso muito! Procuro similares como entretanto, todavia…, mas, uso!)
“Além disso” (uso demais!)
“Consequentemente” (advérbio perfeito em artigos científicos e conversas em geral: uso muito!)
“Em essência” (associo a perfumes – faz sentido, né?, mas também uso!)
“Em última análise” (quando é A ÚLTIMA ANÁLISE eu uso demais!)
Por fim, mas não menos importante, faço uso de travessão. É fundamental o uso dele porque, romanticamente, o vejo como uma ponte, como travessia para explicar o contexto. Agora, ele serve como travessIA? É isso? A IA se apossou desse simples tracinho que faz a ligação perfeita de uma palavra com seu significado mais profundo ou mesmo sinaliza um diálogo? O travessão, meu xodó de travessia nos textos, foi destituído do uso de pobres mortais e se encaixa apenas no perfil dos textos feitos por IA?
Continuarei usando frases curtas, travessão e alguns (muitos) destes termos que citei acima. O detector de IA pode tentar me tirar a autoria, mas sei quais canetas usei (ou teclas!) para pôr meus pensamentos no papel. E como meu coração se enche de alegria ao ver meus pensamentos (repetição de palavras, como a IA faz nos seus textos) encontrarem as palavras certas para saírem de mim e encontrar quem me lê.
Bárbara Seabra – Cirurgiã-dentista, autora de “O diário de uma gordinha” e escritora
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