Uma parcela significativa dos conteúdos sobre saúde mental nas redes sociais é enganosa — e o TikTok lidera esse problema, segundo uma revisão da Universidade de East Anglia. O estudo alerta que vídeos populares podem espalhar informações imprecisas com rapidez, influenciando principalmente jovens que buscam entender sintomas e possíveis diagnósticos.
A pesquisa analisou mais de 5 mil postagens em redes como YouTube, TikTok, Facebook, Instagram e X (antigo Twitter), abordando temas como autismo, TDAH, depressão, ansiedade e outros transtornos.
Os resultados mostram que a desinformação é frequente: em alguns casos, chega a 56% do conteúdo analisado.
A pesquisa foi publicada no The Journal of Social Media Research e é a primeira revisão sistemática a comparar, em larga escala, a qualidade das informações sobre saúde mental e neurodivergência em diferentes redes sociais.
Segundo a psiquiatra, mestre e doutora em psiquiatria pela UFRJ Isabella de Souza, que conversou com o g1, informações errôneas sobre saúde mental representam um retrocesso e impactam desastrosamente a vida de indivíduos com transtornos mentais e de seus familiares. Elas induzem a diagnósticos e tratamentos errados e contribuem para visões preconceituosas ou distorcidas sobre condições médicas bem documentadas.
Entre as plataformas, o TikTok foi identificado como o ambiente com maior volume de informações imprecisas ou sem base científica.
Ao analisar conteúdos específicos, os pesquisadores encontraram taxas elevadas de erro:
Em comparação, o YouTube apresentou cerca de 22% de desinformação, enquanto o Facebook teve menos de 15%.
Segundo os autores, os algoritmos das plataformas — especialmente do TikTok — favorecem conteúdos com alto engajamento rápido, o que contribui para a viralização de informações incorretas.
Os pesquisadores alertam que o problema vai além da desinformação em si. Isso porque muitos jovens usam as redes sociais como fonte principal para entender sintomas e buscar possíveis diagnósticos.
De acordo com o estudo, esse cenário pode:
Além disso, conselhos sem comprovação científica podem atrasar intervenções eficazes e agravar quadros clínicos.
A análise também comparou conteúdos produzidos por profissionais de saúde com os de influenciadores e usuários comuns.
Os resultados mostram uma diferença significativa:
Apesar disso, conteúdos confiáveis ainda representam uma parcela pequena do total disponível nas plataformas.
Outro ponto destacado é o funcionamento dos algoritmos. Quando o usuário demonstra interesse por um tema, passa a receber conteúdos semelhantes em sequência.
Isso cria as chamadas “câmaras de eco”, que podem reforçar informações falsas ou exageradas — fenômeno descrito pelos pesquisadores como uma “tempestade perfeita” para a disseminação da desinformação.
Entre os ambientes analisados, o YouTube Kids apareceu como um ponto fora da curva.
A plataforma não apresentou desinformação sobre ansiedade e depressão e registrou apenas 8,9% de conteúdo impreciso sobre TDAH, resultado atribuído a regras mais rígidas de moderação.
Já o YouTube tradicional foi considerado inconsistente, variando conforme o tema e o criador.
Os pesquisadores defendem que profissionais de saúde e instituições ampliem sua presença nas redes sociais, produzindo conteúdos baseados em evidências.
O estudo também sugere:
Médicos destacam que o autodiagnóstico incorreto por parte dos pacientes tem sido discutido exaustivamente em todos os encontros, simpósios e congressos médicos ou envolvendo profissionais da saúde mental.
A psiquiatra Izabela Souza explicou ao g1 que, ao mesmo tempo em que há um crescente interesse sobre saúde mental, os médicos observam um aumento de sites, blogs e entrevistas com pessoas que desconhecem o assunto. Esses indivíduos advogam em causa própria, usam o tema para autopromoção ou interesses pessoais ou repassam informações falsas ou levianas sem nenhum compromisso com a verdade, observa a médica.
“Essas informações errôneas impactam desastrosamente a vida de pessoas com transtornos mentais e seus familiares, quando banalizam ou glamurizam condições que trazem sofrimento”, destaca Souza.
Isso porque esses conteúdos induzem a diagnósticos e tratamentos errados e contribuem para visões preconceituosas ou distorcidas sobre condições médicas bem documentadas e estudadas, que podem se beneficiar por meio de uma abordagem correta e especializada.
A médica cita, por exemplo, uma entrevista divulgada com um suposto médico que supostamente teria descoberto TDAH e afirmava que essa condição não existia.
Além disso, são disseminadas curas milagrosas para pessoas com TEA.
“Essas fontes são falsas, mentirosas ou distorcidas, representando um retrocesso em uma área da saúde que lutamos tanto para ser cada vez mais acessível a todos”, afirma.
Souza acrescenta que a banalização de transtornos mentais sérios representa um retrocesso, pois o paciente e seus familiares sabem de sua luta diária em busca de inclusão e entendimento sobre suas condições.
A banalização do diagnóstico de depressão, por exemplo, faz com que várias pessoas confundam tristezas e frustrações que acontecem na vida de forma inevitável com uma doença grave, que necessita de uma abordagem diferente. Nesses casos, o paciente não vai buscar uma abordagem correta e acredita que todas as suas angústias são por causa de um diagnóstico de depressão, ficando frustrado quando não melhora.
Da mesma forma, uma família que luta para que uma criança com transtorno de aprendizado possa receber uma acomodação específica tem sua fala invalidada pela banalização do diagnóstico.
Isso acontece também com o autismo, levando famílias a se sentirem fracassadas ou com mais dificuldades em obter seus direitos.
Souza destaca que os riscos de seguir conselhos de saúde mental sem comprovação científica são muito sérios:
Especialistas em saúde mental destacam ser fundamental que as pessoas interessadas:
Souza acrescenta que postagens levianas e falsas devem ser denunciadas aos órgãos competentes, com a finalidade de investigar e apurar a veracidade da informação e orientação fornecida.
Fonte: G1
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