SUPOSIÇÕES –
Fazia anos que eu não a via. Queria voltar a revê-la. Não podia ela nem mais ser chamada de minha. Não havia mais ninguém à minha espera ou ela talvez nem ansiando por me ver.
Mas nada como viajar num trem. Embarcar sem bagagem num percurso que dura alguns segundos. Sem nada . Sem hora marcada no médico. Longe dos relacionamentos que foram longe demais e já não permitem retorno. Tudo com a rapidez e a simplicidade de alguém que tem sede e emborca um copo d´água.
As pálpebras começando a pesar, e eu vendo de passagem uma fila de árvores a prometer boa sombra e o melhor da sesta. Tudo jogado no fundo do poço de um inferno particular momentâneo.
Willy , fazia muito tempo que eu não voltava à minha cidade invisível, despojado; sem o velho “trainers” de algodão cinza; sem a camiseta esporte branca de verão; e o calcanhar do tênis desgastado de forma irregular , como se estivesse pisando torto sem perceber. Pouco importa , José, até os lugares invisíveis não são os mesmos quando vistos mais de uma vez.
Naquele tempo sempre acontecia algo que fazia o meu coração acelerar. Mas tudo se perdeu no tempo. Verdade. Como vai você ? Sobrevivendo. E você e Wendy ? A verdade é que não sei ao certo; casamento depende de duas pessoas; às vezes parece que está tudo certo; em outras , nem tanto; concorda? Também não sei. Já nem me lembro mais o que é estar casado. Ela se foi há muitos anos.
E o cocker spaniel , cara ? Morreu faz tempo, atropelado. Viveu dez anos, um bocado de tempo , mas não há de ser nada, o tempo cura tudo. Resolvi evitar de sofrer mais de uma vez com certas coisas. Criar cachorro, por exemplo. Pois é, a população aumenta e o novo sempre vem. O número de carros, também , e um número maior de cães atropelados. Ah ! Você e seu humor negro tropical .
É, mas estamos bem de aparência. Ôxe, será que só existe espelho na Inglaterra ? Num certo sentido a nossa geração está chegando ao fim. Verdade , Willy. Mas quando um som chega ao fim, a melodia de uma certa forma continua ecoando no ar. Ah! Você e suas tiradas felizes ditas na minha língua, não me comovem um pingo. Mas se você não fala português, fazer o quê. Não haveria outra maneira.
Sobrou, me pareceu , um leve sorriso misturado com um leve ranger de dentes. Pensei mandar um beijo. Evitei. Afinal, o beijo não vem da boca. Talvez do interior do corpo. O cérebro é cego e vê. É surdo e ouve. E na hora da morte o sangue chega ao coração pela última vez. Somos os labirintos que criamos. Sempre para mostrar que há sempre uma causa para um efeito. E o efeito que causa teve. A imagem se foi. Como por encanto. Segui o ritmo do baloiço da rede.
A um só tempo, náufrago e navegador de mim , a projetar outras, entre quatro paredes.

José Delfino – Médico

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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