SERÁ QUE VIVEMOS UM NOVO CANUDOS SEM UM CONSELHEIRO? – Luiz Serra

SERÁ QUE VIVEMOS UM NOVO CANUDOS SEM UM CONSELHEIRO?

 No final do século XIX a sociedade viveu uma cisão desmedida. A dicotomia e as paixões políticas se acerbaram no tempo de Antônio Conselheiro no limiar da República. De um lado os republicanos que festejavam os novos tempos, apesar da truculência florianista; de outro, a reativação da tese monarquista, nos sertões da imensa e adusta caatinga reverberada pelo beato de Canudos, que levava às últimas consequências as deliberações do novo regime. Nesse viés religioso messiânico, a crescente oposição aos novos dirigentes políticos assomou ares de fanatismo e de inevitáveis confrontos. A mídia da época era impressa em matutinos e vespertinos. Um dos jornais da então capital do país, Rio de Janeiro, era o Apóstolo; de linha católica e inspiração monarquista. Alguns exemplares chegaram até os povoados por onde pervagava o santo dos sertanejos, estes relegados à própria sorte, ou seja, na esperança da divina Providência; esta, intermediada pelo iluminado e intolerante beato Antônio.

Quando do advento do conflito localizado no sertão da Bahia, houve as incursões do governo federal da República, e as tropas do Exército sofreram pesadas baixas, com milhares de mortos. Até que o coronel Moreira César, que tinha a peculiaridade de haver sido um herói nas batalhas da Revolta da Armada (1893/1894) e na Revolução Federalista (1894/1895), sob o gabinete florianista, acabou esquartejado pelos jagunços de Conselheiro liderados pelo “empertigado” Pajeú. A notícia chegou como um raio na capital da República. Alguns prédios de jornais e personagens do antigo regime foram atacados ferozmente pelos partidários republicanos. Os jornais monarquistas Apóstolo, Gazeta da Tarde e Liberdade, do Rio, além de O Comércio de São Paulo, foram golpeados, sendo o primeiro incendiado. Jornalistas foram perseguidos, sendo que o político Gentil de Castro foi morto.

Cheguei a essa digressão histórica para compreender até que ponto uma dissenção, cegas discussões, como vemos hoje, pode ser levada a limites do intolerável no entendimento da sociedade, como alerta e prevenção.

Hoje contemplamos, notadamente na fluidez da mídia eletrônica, um confronto acirrado por duas vertentes opostas, ora por quem seja partidário do ex-presidente Lula, com franca narrativa esquerdista, seja por alguém que se posicione no extremo oposto, inclusive, postulando a volta do antigo regime militar. Estes seguindo o candidato à presidência Jair Bolsonaro. Revolvendo o cenário do ocaso do século XIX, o remedo do “centrão” político  daquela época eram os moderados, que tinham irrisório apoio popular e, no calor da confrontação, os partidários dos extremos prosperaram e, aclamados, tomaram as ruas, até que os conflitos reais aconteceram.

Diz a história que a sociedade se aquieta com lideranças populares, se houver um discurso de harmonia, de entendimento. Se a sociedade passar a viver em desconcerto, beirando a paixão extrema, a desagregação dos valores mínimos relacionados à harmonia e ao equilíbrio, a tendência inevitavelmente será a de seguir o pior viés da história: um estado de desgaste, de desequilíbrio estrutural e a possibilidade de alguma confrontação, como tal resultou a de Canudos.

Luiz SerraProfessor e escritor
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