José Narcelio Marques Sousa

 “Oh! que saudades que tenho/Da aurora da minha vida,/Da minha infância querida/Que os anos não trazem mais!”. Esse é o trecho inicial da primeira estrofe do poema “Meus oito anos” de Cassimiro de Abreu. Eu o tomei como exemplo para tentar explicar a diferença entre as noções de cidadania de ontem e de hoje.

Definem a cidadania como sendo a expressão concreta do exercício da democracia, com as implicações decorrentes de uma vida em sociedade. A cidadania é plena quando dotada dos direitos civil, político e social. Acontece, porém, de estarmos esquecendo ou relegando a plano secundário, as regras básicas da cidadania. Destroçando e jogando em lixeiras os conceitos da boa convivência entre cidadãos, do respeito aos direitos do próximo, da urbanidade e da própria condição de seres humanos, porquanto estarmos desprovidos de mínimos resquícios de piedade, caridade e solidariedade.

A cidadania se manifesta através das menores atitudes que, de tão pequenas, às vezes ficam despercebidas dos praticantes daqueles valores de conduta. No passado, o despertar para a cidadania era orientação escolar obrigatória. As primeiras noções de cidadania “da minha infância querida” foram as de respeito ao professor. O responsável pela educação da criança de ontem para transformá-la no cidadão de hoje era alvo da homenagem diária do aluno. Ao entrar na sala de aula a classe inteira punha-se de pé, em respeito à nobreza da profissão daquele cidadão.

Na “aurora da minha vida” saudávamos o pavilhão nacional e sabíamos cantar o Hino Nacional Brasileiro de cabo a rabo e, de lambujem, o Hino da Independência e o Hino à Bandeira Nacional.  Não depredávamos carteiras nem pichavámos paredes nas escolas. O máximo de arbitrariedades que praticávamos era filosofar rabiscando nas paredes dos banheiros frases do tipo: “Sinta-se um rei, afinal este é seu trono!”, “Não adianta piscar que eu não volto!” ou “Neste lugar sagrado toda vaidade se acaba. O mais covarde se esforça e o mais valente se c***!”.

Ontem, nos ensinavam que a cidadania requeria aprendizado e prática. E haja catequização na meninada: não jogar lixo na rua, respeitar os idosos, não poluir sonora ou visualmente o ambiente, doar alimentos e roupas a necessitados, prestar serviços gratuitos à comunidade, plantar árvores e exercitar a harmonia interpessoal. “Oh! que saudades que tenho”.

Naqueles idos não destruíamos “orelhões” porque eles não existiam. Mas, se eles lá estivessem, tampouco seriam danificados por conta da orientação solidificada no inconsciente de cada um de nós para preservarmos equipamentos públicos. Seria uma afronta ver um jovem sentado num banco de ônibus, enquanto ao seu lado estivesse um idoso ou uma gestante viajando em pé. Quanta falta daqueles ensinamentos “que os anos não trazem mais!”.

No meu entendimento, uma das mais agressivas manifestações à cidadania é encontrar placas de sinalização de trânsito perfuradas por balas. Como pode o motorista destruir um aparelho responsável pela manutenção de sua própria segurança e a de seus semelhantes? Por outro lado observo que nem tudo esteja perdido ao ver um cidadão anônimo, que sequer sabe dirigir, ter a preocupação de sinalizar um buraco de rua para evitar alguém se espatifar nele com o carro. Recuso-me desacreditar numa mudança para melhor, afinal a esperança é a última que morre!

 Santa Cidadania!

José Narcelio Marques Sousa é engenheiro civil – jnsousa29@gmail.com

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