RÉQUIEM PARA UM AMIGO MORTO – José Delfino

RÉQUIEM PARA UM AMIGO MORTO –
Cessados o prazer e a tormenta das coisas distantes ou extintas; como os objetos e utensílios que povoaram um dia os recantos da casa; ou os entes queridos vivos ou mortos que aconteceram em nossas vidas… É normal a lembrança deles. O difícil (ou até impossível) é o desejo de tornar a vê-los ou possuí-los. Mas os sonhos que completam o nosso sono são egoístas, surreais e incontroláveis. O nosso subconsciente tem um quê de poesia e loucura. E sempre fala numa linguagem diferente, incompreensível, torta. E pior ainda, metafórica. E apaga em nós a lembrança deles, na maioria das vezes. Eis que se acorda com a sensação de algo bom ou ruim acontecido; mas sem se saber ao certo muito bem o que se sonhou. Uns vislumbram a luz. Outros, a sombra. Os que só que veem sombras constroem muros para se protegerem e, óbvio, dar mais trabalho aos psicanalistas.
A meio da noite acordei com o coração a mil e sabendo bem o porquê. Me afogava quando algo me moveu para a margem errada do rio. Levantei-me a custo, o corpo dolorido da posição forçada e estranha em que eu pegara no sono lendo um livro. Ao lado a cama vazia. Tateando a escuridão, segui o corredor que conduz à sala. O que vi remeteu-me a quietude. Ela estava junto da janela que dá pra rua . Iluminada pela luz tosca e ligeiramente fosca dos postes. E que a banhava num tom quase sobrenatural e azulado tingindo também a minha camisa branca que ela tinha usado pra dormir e deixava à vista a base das suas nádegas. Estava imóvel, um cigarro na mão direita ardendo devagar.
E olhava a noite, resignada. Teria também sonhado? Não deu pela minha presença e assim deixei-me ficar a olhá-la encostado à parede meio ensonado e algo assombrado com a imagem de uma pessoa ( me pareceu) ausente do mundo e de si mesma; olhando um ponto indefinido na noite escura como se ansiasse por coisas passadas, por algo que já tinha acontecido há muito tempo, e porque o são as coisas do mundo, nunca mais se repetiria . Depois ergueu o braço cuja mão segurava o cigarro (o gesto tirou-me repentinamente do transe) e levou-o à boca. Inalou e expeliu a fumaça. Que a envolveu em tons de azul e eu recuei , devagarinho, ao quarto. Alguma coisa me disse que não era sensato, interferir naquele momento. Voltei sorrateiro, pé ante pé, pra cama. Fingi dormir quando senti que ela estava de volta. Levantei naquela manhã ensolarada interrogando-me sobre a suposta melancólica disposição que lhe vira naquela noite que, até então, eu desconhecia. Talvez ela fingisse dormir também. Foi quando pensei que, nascendo, vivendo ou morrendo, sempre estamos sós no mundo. Povoado por este imenso depósito de gente esquecida que nunca mais tornará a ser trazida à luz da existência real. Felicidade é sonhar com a curva do sol . E tristeza saber-se do que momentaneamente se pode perder. Deixei pra lá a imaginação pois às vezes ela só complica as coisas. E foi assim, sem mais nem menos, sem me despedir (ela ainda dormia) que deletei a noite de neblina e sombra . Encarei o sol já alto e calorento. Liguei o carro. Decidi não ir ao velório daquele que foi um grande amigo meu. E me perdi entre os semáforos da selva amazônica de Natal.

José Delfino – Médico

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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