REPOR – Bárbara Seabra

REPOR – 

Ao longo da vida a gente perde. Perde cabelo, perde colágeno, perde dentes, perde audição, perde visão, perde ânimo e paciência. É fato! Estávamos numa doceria da cidade e em uma mesa ao nosso lado duas crianças corriam e gritavam incomodando a todos, clientes e funcionários, menos aos pais. Não era por ser brincadeira de criança, mas por ser falta de limites mesmo. Elas batiam nos avós, gritavam desesperadamente para chamar atenção e os pais riam daquilo tudo. Quando saíram o ambiente ficou silencioso e todos respeitaram aquele presente, com medo de falar algo e quebrar o encanto. Não porque perdi a paciência relato isso, mas porque não perdi a audição e elas estavam realmente incomodando a todos, percebia-se nitidamente.

Enfim! Voltando a falar das perdas, tem sido meu foco de estudo ao longo da psicologia: perdas e lutos. Livros e mais livros, classificações e mais classificações, descobertas e mais descobertas e muitas reflexões sobre as perdas. Entendo hoje o luto – o meu luto – por um corpo que não tem o mesmo metabolismo que aos 20 ou 30 anos, que não tem a mesma disposição que  aos 15 ou 25, que apresentou cabelos brancos aos 45 anos e fico todo mês em dúvida se pinto de ruivo, faço mechas azuis ou deixo o cabelo acobreado. Ainda não decidi!

Em meio a tudo isso, descubro um verbo mágico que contrabalança esse período de acomodação (acomodar-se ao tempo!): repor! A cada médico que vou tenho um novo exemplo disso. Estou repondo hormônios, repondo vitamina D, repondo vitamina B12, repondo, repondo, repondo.

Não é como o botox, que se recebe a orientação de reaplicar a cada 3 ou 6 meses. É algo praticamente sem fim! Antes se falava em reposição hormonal por 5 anos, depois por 10, e agora por tempo indeterminado!

Já testei comprimido, gel e estou indo para os adesivos. Se ao menos fossem com desenhos fofos tornaria tudo mais divertido… A cada substituição um monte de exames para ver como o organismo reage. E, assim, seguimos repondo isso ou aquilo.

A cada chronos 45+ comprado, a cada vitamina D ingerida, a cada óculos de grau (multifocal!) substituído, vem a esperança de dar tudo certo e as perdas encontrarem-se na mesma altura das reposições na balança das perdas-e-ganhos e, dessa forma, o jogo terminar em empate.

E se terminar vencendo? Ah, seria perfeito! Talvez por isso aconteça a busca incessante por procedimentos estéticos. Só que ainda estou com o mesmo modelo de fábrica! Ainda!

 

Bárbara Seabra – Cirurgiã-dentista, autora de “O diário de uma gordinha” e escritora

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
Ponto de Vista

Recent Posts

PF faz operação contra servidores da AmazonPrev por investimento milionário no liquidado Banco Master

A Polícia Federal deflagrou nesta sexta-feira (6) a operação “Sine Consensu” contra três servidores da…

1 dia ago

COTAÇÕES DO DIA

  DÓLAR COMERCIAL: R$ 5,3160 DÓLAR TURISMO: R$ 5,5080 EURO: R$ 6,1410 LIBRA: R$ 7,0710…

1 dia ago

Japão aprova primeiro tratamento com células-tronco para Parkinson; terapia pode chegar aos pacientes ainda este ano

O Japão aprovou um tratamento inovador contra a doença de Parkinson que utiliza células-tronco para…

1 dia ago

Adolescente de 17 anos é morta a tiros dentro de casa na Grande Natal

Uma adolescente foi morta a tiros dentro da casa dos avós na madrugada dessa quinta-feira (5)…

1 dia ago

Pastor é preso por suspeita de estupro de vulnerável em Santa Cruz

Um pastor evangélico de 63 anos foi preso nesta quinta-feira (5), em Parnamirim, suspeito de estupro…

1 dia ago

Justiça proíbe Havan de usar personagem ‘Fofão’ em promoções após ação movida pela Carreta Furacão

A Justiça de Ribeirão Preto (SP) proibiu a Havan, do empresário de Santa Catarina Luciano Hang, de…

1 dia ago

This website uses cookies.