QUEM PROTEGE OS PROTETORES? A CORRUPÇÃO QUE SURGE ONDE DEVERIA DESAPARECER –
As recentes descobertas em investigações e CPIs envolvendo servidores públicos reabrem um debate delicado: quem vigia aqueles que têm o dever de vigiar?
A corrupção, há séculos, é uma ferida aberta que enfraquece o Estado e destrói a confiança da sociedade nas instituições. No entanto, é essencial distinguir as estruturas da Justiça — pilares indispensáveis da democracia, das condutas individuais de alguns de seus membros, que, ao trair seus deveres, comprometem a imagem do todo.
Um estudo conduzido em Bruxelas pelo economista Khalid Sekkat, analisando dados de 56 países entre 2004 e 2013, revelou que a corrupção pode irradiar-se a partir do sistema judicial, não por falha institucional, mas pela conduta de quem o integra. Quando o medo, o favorecimento ou a omissão substituem a coragem e a ética, o efeito se espalha, corroendo a confiança coletiva.
A omissão ética de alguns membros da Justiça cria um efeito em cadeia: os desonestos se sentem seguros, os íntegros se frustram e o cidadão comum perde a fé no sistema.
A corrupção, nesse contexto, não é apenas material, é moral: manifesta-se quando o silêncio ocupa o lugar da consciência.
Há quase dois mil anos, o poeta romano Juvenal questionou: “Quem vigia os vigilantes?”
Essa pergunta ainda ecoa, pois a função de julgar é uma das mais nobres e, ao mesmo tempo, mais vulneráveis ao desvio.
A independência judicial deve andar lado a lado com a responsabilidade ética.
Fiscalizar o comportamento de quem julga não é atacar a Justiça, é fortalecê-la.
É urgente valorizar a formação ética dos magistrados e servidores, aprimorar os mecanismos de transparência e lembrar que a toga não é símbolo de poder, mas de serviço público.
A confiança do povo depende menos das leis que se escrevem e mais da consciência de quem as aplica.
Em última análise, a Justiça é tão justa quanto forem seus membros.
E o destino ético de uma nação depende não apenas das urnas — mas da coragem moral de quem julga.
Raimundo Mendes Alves – Advogado e vereador
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