QUEM PAGARÁ “O PATO” NAS MUDANÇAS DA ECONOMIA? – Ney Lopes

QUEM PAGARÁ “O PATO” NAS MUDANÇAS DA ECONOMIA? –

Ninguém pode acusar de incoerência, os primeiros passos do governo Bolsonaro. Afinal, tudo que ele vem fazendo, anunciou na campanha que faria.

Algumas análises podem ser antecipadas. Uma delas seria prognóstico sobre os rumos da economia.

O superministro Paulo Guedes, condutor do processo de mudanças, fez estudos de pós-graduação na Universidade de Chicago, inspirado no “guru” da economia Milton Friedman, o seu professor americano (Nobel de Economia, autor da frase “Não há almoço grátis”) e pai dos chamados “Chicago Boys” (estudantes liberais da Universidade de Chicago).

As ideias de Friedman influíram no Chile, Estados Unidos (governo Reagan) e Margareth Tatcher, no Reino Unido.  Um dos dogmas adotados é a concessão de livre trânsito ao setor financeiro, na direção oposta à ideia dos economistas clássicos, de conter os juros nos mercados. Talvez por isso, os nomes recrutados por Paulo Guedes sejam oriundos das “bolsas de valores”.

A questão central, de agora por diante, será a submissão, ou não do governo, às leis do mercado. Não se discute que na democracia, Estado e Mercado devem se complementar. Entretanto, muitas vezes esse modelo é distorcido, tornando-se impossível distinguir entre “mercado”, “negócios” e “negociatas”.

No governo Dilma Rousseff, a desoneração da previdência social resultou em mais de R$ 600 bi de receita perdida pela previdência social. Tais benefícios eram destinados à redução do desemprego, que terminou aumentando. O fato significou a perda de valores monetários quatro vezes superior ao “rombo” da previdência, resultando na atual crise fiscal.

A dívida bruta está em 75.1 % do PIB, quando em final de 2013 era de 56.7% do PIB. Falando em termos nominais, a dívida alcança mais de R$ 4 trilhões de reais. Aumento de 100%.

Todavia, quando se fala em solução futura, tudo somente “recai em anúncios de sacrifícios nas costas do aposentado e do servidor”, que contribuíram com a previdência ao longo dos anos.

Por que não falar em devolução, de quem se beneficiou e não aplicou corretamente os recursos originários de verdadeiras dádivas financeiras?

No Brasil, o “falso rótulo de economia de mercado” justificou o BNDES transformar-se em máquina perniciosa de redistribuição de renda às avessas. A JBS, a Odebrecht, Eike Batista e várias outras grandes empresas (algumas surpreenderão o leitor, se aberta a “caixa preta”) cresceram pelas “conexões de compadrio” com o governo.

Até ditaduras foram beneficiadas. Em consequência, financiaram-se grandes fusões, liberaram-se “autorizações bancárias” (de financeiras) e recursos “fáceis” para atividades que não geram emprego em curto prazo, abrindo portas para poderosos monopólios, protegidos pelo estado.

Por justiça, a maioria da classe empresarial nacional não age dessa forma.

A verdadeira economia de mercado penaliza a formação de cartéis e rejeita que empresa de menor porte corra o risco de ser “esmagada” por “mega negócios”. No RN de hoje há exemplo dessa prática criminosa.

Observe-se que a “receita mágica” dos “Chicago Boys” encontrará dificuldades na tarefa de redução do “tamanho do estado”, diante da afinidade de Bolsonaro com Trump.

O presidente americano rejeita o neoliberalismo e é claramente defensor do protecionismo, contra a globalização, China, acordo do clima, abertura comercial no Pacífico etc.

Note-se que o sucesso econômico da China e Índia não está associado ao “estado mínimo”. Nesses países, ao lado da abertura comercial, prevalece o “Estado necessário”, que desempenha papel essencial, na adoção de medidas protecionistas e controle de capital externo.

A China usou as “áreas de livre comércio”, para aprimorar os seus produtos, incrementar exportações e assim competir em igualdade.

A esperança do governo Bolsonaro é que os “Chicago boys” sigam os modelos de “mercado aberto” do sudeste asiático, Oceania, leste europeu pós-comunismo e outros. O mínimo que se espera é que os sacrifícios das reformas sejam “divididos” e os aposentados e servidores, civis e militares, não paguem “o pato” sozinhos.

Para isso, a estratégia dos “Chicago Boys” terá que seguir o conselho do seu Mestre, Milton Friedman, de que “as medidas devem ser tomadas de forma radical, porque é melhor cortar o rabo do cachorro de uma só vez, do que em pedacinhos”.

Há muita “gordura” para ser cortada no Brasil, além das já anunciadas, se o governo tiver coragem e for realmente independente!

 

Ney Lopes – jornalista, advogado, ex-deputado federal; ex-presidente do Parlamento Latino-Americano, procurador federalnl@neylopes.com.br www.blogdoneylopes.com.br
As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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