QUASE QUARENTA E NOVE – Flávia Arruda

QUASE QUARENTA E NOVE –

 Hoje, dia 5 de junho de 2020, vi chegar os primeiros raios de sol. Não é um dia comum, apesar de se mostrar igual e tantos outros. Há algo de especial nas sombras da madrugada sugadas pelas tímidas fagulhas do amanhecer. Talvez seja pelo fato de que daqui a três dias eu feche mais um ciclo.

O meu calendário conta, hoje, 17.898 dias vividos. Dias ímpares e dias pares, cheios e vazios. Dias ensolarados, outros nublados. Dias de graça, risos e vitórias. Dias encharcados de realizações, outros… nem tanto. Contei, na verdade, 17.898 dias empanzinados de vida, vividos de todas as formas, jeitos e maneiras: ora viva, gritante, pulsante; ora chorosa, pensante, frustrante… incerta.

Como bem divulgam os horóscopos da vida, ser de gêmeos é viver o inconstante, ser instável por natureza onde a rotina é algo, definitivamente, enfadonha. Acho que eu posso atestar esse estado inconstante de ser, afinal, como negar algo intrínseco ao meu viver? Daqui a pouco mais um ciclo se fecha, mais um ano se passa, porém, na vida, terei um ciclo a menos.

Outro dia fui convidada a fazer um ensaio sensual, um tal de boudoir. Até então nunca ouvira falar nesse termo francês que remete ao registro fotográfico feminino em poses sensuais. Pois bem, aceitei! O ensaio foi feito por duas grandes amigas dos tempos de escola, que se tornaram sócias da @2ellesfotografias (Dany Granja e Michelle Gurgel). Posso dizer sem medo de errar: elas realizam uma linda e perfeita plástica nas mulheres.

 O ensaio contou com a mentoria do fotógrafo @humbertolopes. Um show de arte entre versos, luz, prosa e paixão. Com esse convite andei a divagar… E sabe o que me chamou a atenção? Percebi que uma característica muito comum nas mulheres de minha época é o empoderamento de que tanto falam hoje.

 Nós já éramos empoderadas, pois sempre soubemos do nosso papel, mesmo que em alguns momentos tivéssemos que nos desencontrar de nós mesmas. Mas, algo que é inato não morre e, por isso, estamos aqui contando nossas dores, os perrengues, os risos e curtindo cada página vivida de nossas vidas.

Lindas loiras, ruivas, morenas, magrelas, gordas, jovens, meia idade, todas as idades. Ainda que negras, brancas, amarelas, vermelhas, pobres ou ricas, independentemente do gênero que nos atrai… E daí?

Acho que é isso mesmo, liberdade de ser quem é. Essa é a nossa busca incessante que me foi registrada em cliques. Amei fazer o ensaio quase aos quarenta e nove anos de idade, quase meia idade, totalmente fora dos padrões de beleza impostos por nossa sociedade. Confesso que cada foto me trouxe um significado, porque me fez colocar os tijolos que faltavam no muro da minha existência, até então.

Esse é um momento de encontro e renovação, de mim para comigo, e de tudo aquilo que eu neguei e não quis enxergar. Hoje tem algo mágico em mim, que renasce a cada postagem que faço dessas imagens unidas a poesia que construo em inspiração. Assim como escrever é algo libertador, fazer um ensaio boudoir é algo que transcende às amarras daquilo que nos estagna. É libertação.

Bom, sem mais delongas, gostaria de exaltar alguns frutos dessa nova fase que se inicia. Sim, a renovação acontece quando conseguimos fechar ciclos e mergulhar no que ainda nem se mostrou. Para isso conto sempre com o calor dos que estão próximos e que me ofertam carinho e incentivo, mesmo sem saberem de suas influências.

Ah, antes que eu esqueça, no dia 8 de junho, daqui a três dias, eu fecho mais um ciclo, iniciando novo caminhar, agora para a meia idade.

 

Flávia Arruda – Pedagoga e escritora

 

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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