QUANDO O AMOR ACABA, O DIREITO DE RECOMEÇAR PERMANECE – Raimundo Mendes Alves

QUANDO O AMOR ACABA, O DIREITO DE RECOMEÇAR PERMANECE –

“Não vale mentir. Homens, sejam sinceros: como você se sente quando vê outro homem com a sua ex?”

A pergunta parece simples, quase provocativa. Mas por trás dela existe um universo emocional que poucos homens admitem publicamente.

A reação imediata, na maioria das vezes, não é racional. Surge uma pontada no peito, um desconforto inesperado, uma sensação de substituição. Não necessariamente porque ainda exista amor, mas porque existe memória, história e, muitas vezes, orgulho.

A cultura masculina foi construída sobre a ideia de posse. Durante muito tempo, ensinou-se ao homem que a companheira era “sua”. E esse “sua” não era apenas afetivo, era quase patrimonial. Ainda hoje, resquícios dessa mentalidade sobrevivem no imaginário coletivo.

Mas relacionamento não é propriedade.
É escolha.

E quando a escolha termina, termina também qualquer exclusividade.

O desconforto que muitos sentem ao ver a ex-companheira com outro homem, em grande parte, está ligado ao ego. Surgem comparações silenciosas: “Ele é melhor do que eu?” “Ela está mais feliz agora?” “Eu fui insuficiente?”

A verdade é que o fim de uma relação raramente é um julgamento de valor sobre quem somos. Relações acabam por desencontro de expectativas, projetos incompatíveis, desgaste emocional ou simplesmente porque o ciclo chegou ao fim.

No campo jurídico, essa realidade é ainda mais clara. O Direito de Família evoluiu para reconhecer a autonomia da vontade e a liberdade afetiva como expressões da dignidade da pessoa humana. Ninguém é obrigado a permanecer onde não há mais vínculo emocional. Se não existe dever legal de continuidade, também não existe direito moral de posse após o término.

Sentir é humano.
Reagir com desequilíbrio é escolha.

Há homens que transformam o desconforto em ironia, agressividade ou desqualificação. Outros compreendem que a dor momentânea não autoriza desrespeito permanente.

A maturidade não está em não sentir nada. Está em saber lidar com o que se sente.

Especialmente quando há filhos envolvidos. Nesses casos, a postura do homem não é apenas uma questão emocional, é uma questão de responsabilidade. Hostilidade entre ex-companheiros fere, antes de tudo, os filhos.

Talvez a pergunta mais importante não seja “como você se sente?”, mas “como você age diante do que sente?”.

A verdadeira força masculina não está na posse, mas na capacidade de aceitar o fim com dignidade. Não está em disputar passado, mas em construir futuro.

Ver a ex com outro pode causar desconforto. É natural.
Mas respeitar o direito dela de recomeçar é sinal de maturidade.

Porque, quando o amor acaba, o vínculo se encerra, mas a liberdade permanece.

E quem compreende isso demonstra não fraqueza, mas grandeza.

 

 

 

Raimundo Mendes Alves – Advogado e procurador aposentado

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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