As Quadrilhas Juninas: herança e tradição da Cultura Popular

Roberto Lima de Souza

Esse artigo nasceu de um comentário que fiz a respeito de uma frase dita sobre as quadrilhas juninas tão belamente mostradas nas nossas emissoras de televisão. Falava-se que “não são mais como antigamente”. Eu questionei: Isso é positivo ou negativo? E emiti a minha opinião que agora compartilho com vocês.

Durante os festejos juninos, em especial no Nordeste do Brasil, podemos constatar como ainda está viva e o quanto é forte a nossa cultura popular. Isso ocorre principalmente porque, no período das grandes festas, é que mais afloram os sentimentos e as tradições do nosso povo. É como ocorre também no ciclo natalino, no carnaval e nas datas mais significativas da tradição popular.   Há sempre os que digam que “não é mais como antigamente”. A essa afirmativa, acrescento logo: “Nem poderia ser.” Como em todo processo histórico, da mesma forma como se transformam os meios de produção, a cultura também se transforma, evolui e a ela se agregam novos valores.

Cultura é o que se cultiva, o que se valoriza e transmite a cada geração. Não fosse cultivada, não seria cultura. Não fosse valorizada, não haveria por que ser cultivada. Não fosse transmitida, não subsistiria e ficaria restrita a um momento do passado.  Eis por que a cultura se constitui em herança e tradição: Herança por se constituir em um legado dos nossos ancestrais e tradição pelo seu caráter de perpetuação no sentimento e na alma do povo, nos seus fazeres e nos seus falares.

O fato de os eventos culturais apresentarem, a cada época, uma feição peculiar, de conformidades com os meios disponíveis em determinada sociedade ou comunidade, não significa que a cultura tenha se acabado porque “não é mais como antigamente.” É claro que não podemos ter mais uma representação dos autos populares como no tempo de Gil Vicente, em Portugal, nem como era no Brasil do século XVI ao XIX. O importante é que essa cultura chegou ao século XX e continua no século XXI. Eis a força da cultura do povo. Os eventos se transformam, agregam novos meios, novas tecnologias.

Não podemos confundir saudosismo com tradição. É normal esse sentimento. É belo guardar lembranças de festas memoráveis, de como foram, de como eram… É aceitável e louvável até. Inaceitável é transformar isso no saudosismo que impede enxergar as belezas do que se faz agora, perpetuando essa memória da ancestralidade.  As festas de hoje também serão memoráveis. Na juventude de hoje, sempre haverá alguém que jamais se esquecerá de cada detalhe, por exemplo, de uma dança de quadrilha de que participe com toda a sua alma e coração.

O nosso “São João na Roça”, não poderia ser exatamente o mesmo, porque a roça já não é mais a mesma, mas o mesmo é o espírito junino que se reflete na festa que celebra o santo mais popular do Brasil, a colheita e a fartura com as comidas típicas, as fogueiras, a música e as danças.

As quadrilhas juninas evoluíram e se transformaram. E não poderia ser diferente. As indumentárias são mais bem confeccionadas, com mais recursos, mais brilho. Dispomos de espaços bem mais adequados, com decoração, iluminação e som da melhor qualidade. Temos ainda o mais importante: uma juventude que assume a sua nordestinidade, valorizando e preservando a nossa dança com todo o seu entusiasmo, em belas coreografias. Eis o mais importante: Valorizar, cultivar, preservar. “Preservar”, diga-se de passagem, que não significa “engessar”. Da mesma forma, “evoluir” não significa “deturpar”, mas agregar valores novos mantendo-se o mesmo espírito.

Louvem-se os nossos meios de comunicação que têm dado ampla cobertura a esses eventos, enfatizando a sua importância para a nossa cultura e nossas tradições.  Dar visibilidade ao que é nosso, em época de tão grande globalização, contribui enormemente para o fortalecimento da nossa cultura, aumentando a autoestima da nossa gente para mais e mais cultivá-la, valorizá-la e perpetuá-la, fazendo da nossa cultura herança e tradição.

Roberto Lima de Souza – Professor universitário, doutor em Filosofia, poeta e compositor, membro da Comissão Estadual de Folclore e Presidente da União Brasileira de Escritores/RN.

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