PRIMEIRO DE MAIO E REFORMA DA PREVIDÊNCIA – Ney Lopes

PRIMEIRO DE MAIO E REFORMA DA PREVIDÊNCIA –

Hoje, Dia do Trabalho.

Momento oportuno para reflexões sobre a reforma da Previdência, que é inegavelmente necessária.

Todavia, impõem-se alterações no texto enviado ao Congresso, sem que sejam consideradas “desidratação maléfica”, em prejuízo dos objetivos finais das mudanças.

Alguns delírios do mercado terão que ser retirados, para evitar sacrifícios sociais injustificáveis. Nunca se exigiu tanta competência pessoal e responsabilidade dos deputados e senadores, na tarefa de separação do “joio do trigo”.

O ministro Paulo Guedes confessou na “Central Globo News”, que a sua proposta é para economizar R$ 1,237 trilhão em dez anos, ou seja, 15,4% acima do valor que vinha sendo divulgado pelo governo, de R$ 1,072 trilhão.

Trocando em miúdos, a equipe econômica trabalha com “bodes” e “jabutis” embutidos na PEC em debate.

No jargão legislativo, “jabutis” são aqueles artigos que não têm relação com a matéria principal e confundem o legislador (por exemplo: criação de precondições para a privatização da previdência).

“Bodes” são previamente introduzidos, já com a intenção de “negociar” e, ao final, manter aquilo que realmente interessa.

Um dos pontos inquestionáveis é a idade-limite.

Há uma tendência mundial de que as próximas gerações trabalhem por um período maior, em razão da expectativa de vida aumentar.  Nos países da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), a média das idades mínimas é de 64,2 anos.

No Brasil, não poderia ser diferente, desde que aplicadas “regras de transição” graduais, justas e humanas, que respeitem o planejamento de vida individual e familiar, daqueles que hoje cumprem as normas legais vigentes e não podem arcar com mudanças abruptas.

Observa-se que a proposta oficial, inexplicavelmente, deixa de alocar várias fontes de recursos fiscais disponíveis, que diminuiriam os sacrifícios de certas categoriais sociais.

A consequência são situações dramáticas, como a do servidor público, que falta pouco tempo para aposentar-se. Esse funcionário não usufrui nenhum privilégio. “Queimou as pestanas” em concurso público para chegar onde chegou e retira do bolso mensalmente a sua cota de previdência.

A PEC o atinge, prorrogando o seu tempo de permanência (o que é admissível, desde que as regras de transição sejam “graduais”) . O que não se justifica é a perda do direito à paridade, gratificações e incorporações legais, a que faz jus há anos.

A redução de salário em alguns casos irá além de 50% e ocorreria, justamente na velhice, quando aumentam os encargos familiares e assistência à saúde. Essa é forma de combater privilégios?

Enquanto isso, esconde-se da opinião pública, que atualmente o serviço público não é mais o responsável pelo déficit previdenciário.

Poucos sabem, que desde 2012, estão proibidas as “aposentadorias milionárias”, o que significa dizer que o déficit do setor público está gradualmente estabilizado. Todos servidores públicos, que ingressaram a partir de 2013, já estão sujeitos ao teto do INSS (R$ 5.800 hoje) nas aposentadorias futuras.

A questão dos atuais “salários milionários”, será resolvida com a fixação do “teto” de vencimentos, fiscalização e punições severas para o cumprimento.

O maior “jabuti” na PEC é a proposta de “capitalização”. Trata-se de um sistema administrado por fundos privados (recorde-se o “blefe” de fundos semelhantes no passado), no qual o contribuinte faria a própria poupança para garantir a sua aposentadoria.

O texto está confuso e impreciso, na medida em que exclui da Constituição o regime de repartição solidária e abre a janela para a privatização da previdência, além do risco de retirada de direitos futuros, através de lei complementar, que exige apenas maioria absoluta, ao invés de 3/5 nas duas casas do Congresso.

Capitalização previdenciária foi obra nefasta do ditador Pinochet no Chile, já revogada naquele país. Segundo a OIT, 18 nações da América Latina e do Leste europeu, que copiaram esse sistema, tiveram de reverte-lo.

Quem conhece zoologia sabe que os “jabutis”, introduzidos na PEC previdenciária, não sobem em árvore sozinhos.

Se lá estão, alguém os colocou.

A tarefa de preservar o interesse público será do Congresso Nacional, se não for cooptado.

 

 

 

Ney Lopes jornalista, ex-deputado federal e advogadonl@neylopes.com.br
As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
Ponto de Vista

Recent Posts

COTAÇÕES DO DIA

DÓLAR COMERCIAL: R$ 5,3080 DÓLAR TURISMO: R$ 5,5170 EURO: R$ 6,2250 LIBRA: R$ 7,1560 PESO…

1 dia ago

MP denuncia oito pessoas por esquema de sonegação que causou prejuízo de R$ 1,5 milhão no RN

O Ministério Público do Rio Grande do Norte ofereceu denúncia contra oito pessoas investigadas em…

1 dia ago

Motorista de carreta-tanque fica preso às ferragens após acidente na BR-101 no RN

Uma carreta-tanque tombou na BR-101, em Goianinha, no litoral Sul do Rio Grande do Norte,…

1 dia ago

Viatura da PRF capota durante perseguição a motociclista na BR-101 na Grande Natal

Uma viatura da Polícia Rodoviária Federal (PRF) capotou na noite dessa quarta-feira (21), durante uma…

1 dia ago

RN tem recorde de transplantes em 2025, mas segue com filas de espera por órgãos

O Rio Grande do Norte registrou um recorde no número de transplantes de órgãos realizados…

1 dia ago

Justiça condena governo do RN a pagar R$ 500 mil de indenização por assédio moral em secretaria

A Justiça do Trabalho condenou o estado do Rio Grande do Norte a pagar R$ 500…

1 dia ago

This website uses cookies.