POUCAS E BOAS – José Narcelio Marques Sousa

POUCAS E BOAS – 

 

Poucas e Boas foi o título escolhido por dois escritores do Rio Grande do Norte para publicar livros e nominar crônicas semanais envolvendo personagens marcantes do Estado, em situações hilárias. Durante anos, Armando Negreiros e Valério Mesquita, arrancaram gargalhadas dos leitores das poucas e boas trapalhadas publicadas nos principais jornais impressos da capital.

Apropriei-me, indebitamente, da designação para reproduzir algumas situações tragicômicas que me foram fornecidas por um fraterno amigo, Fernando Villa, empresário do ramo funerário, em Natal.

Causo 1 – Família reunida, no Centro de Velório, em torno do patriarca sendo velado nas celebrações fúnebres. Ao longo das exéquias e na encomendação do corpo, o padre não parou de tecer elogios ao falecido: – Fulano foi um bom marido e o melhor pai de família. Correto, probo, humilde, caridoso… – e nessa linha de exaltação seguiu durante toda a cerimônia.

Finda a liturgia a filha do morto se aproxima do padre e indaga: – Padre, o senhor conhecia bem meu pai? – o sacerdote um tanto surpreso, quis saber: Por que essa pergunta, filha? – a moça, inconformada, desfez todas as benquerenças atribuídas ao seu genitor, dizendo que ele teria muito a se explicar “lá em cima” e no Juízo Final.

O padre, bom de papo, chamou a moça indignada para um canto e, após momentos de boa conversa, amainou a sua revolta e ainda conseguiu que relevasse as falhas atribuídas ao pai durante a sua jornada neste mundo. Amém!

Causo 2 – No mesmo Centro de Velório, duas mulheres choravam, copiosamente, a partida prematura do falecido – segundo uma conhecedora da situação, tratava-se da esposa e da “rapariga”. Percebia-se um sentimento de profundo pesar decorrente da perda, fato constatado pela profusão de lágrimas das duas.

Conclusão a que se chegou: a esposa não sabia da existência da rival ou, se sabia não a conhecia ou, então, era possuidora de bondoso coração e de enorme capacidade de perdoar. Isso porque na hora das orações, ambas se aproximaram, deram-se as mãos e, comovidas, rezaram bastante pelo Don Juan ali velado.

Causo 3 – Esse fato se deu na antiga funerária da família. Chamados pelo hospital psiquiátrico da capital para proceder um sepultamento, a funerária foi ao local e, atendendo orientação da direção, permitiu que um interno, líder informal dos internos do manicômio, preparasse o corpo do falecido para as exéquias.

No cemitério, diante da cova aberta, abriram o caixão para o adeus da família. Mas, qual não foi a surpresa ao encontrarem pedras em vez do corpo. Parentes revoltados, funerária desconsertada, incredulidade geral. Retornaram ao hospício em busca do único possível responsável pela troca: o líder maluco.

O bem-querer dos doidos pelo colega falecido foi a razão para não deixarem enterrá-lo. A ideia de trocar o corpo por pedras partiu do doido-mor. Os internos, ainda renitentes com as negociações, entregaram o amigo ainda enrolado na mortalha. O que pensavam fazer com o corpo, somente um doido pode responder.

Causo 4 – Duas senhoras morreram no mesmo dia, quase na mesma hora, num dos hospitais da cidade. A família da primeira delas fez o devido reconhecimento, e autorizou o sepultamento que foi efetuado sem problemas. Coube a mesma funerária o enterro da segunda. Para identificar o cadáver apareceu o esposo que foi deixado sozinho com a falecida. Após certo tempo sem qualquer manifestação, perguntaram ao senhor: – Podemos preparar o corpo para o enterro?

Tudo se complicou com a sua resposta: – É parecidíssima, mas não é minha mulher! – sacramentou o esposo. Espanto geral. A diferença entre as duas consistia num sinal que a segunda defunta não possuía. Fato esse afiançado pelo marido constrangido, que procurou a marca na genitália da defunta ali presente, sem o encontrar. Conclusão: desenterraram a primeira mulher e viram que o sinal existia, sim, no local prescrito. Ante acusações e revolta de ambas as famílias, fizeram as trocas.

Segundo minha fonte, são situações corriqueiras no ramo funerário.

 

 

 

 

José Narcelio Marques Sousa – Engenheiro e Escritor

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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