PORQUE SOMOS HUMANOS – Alberto da Hora

PORQUE SOMOS HUMANOS – 

Há uma semana, aqui, no nosso amado e cordial Brasil, o ônibus de um clube de futebol na Bahia foi atacado com bombas caseiras, provocando sérios ferimentos em alguns atletas. No dia seguinte, em duas outras cidades, outros foram alvo de pedradas que também causaram destruição e ferimentos. Em Natal, às vésperas de um jogo entre os dois maiores rivais, a Polícia apreendeu com torcedores grande quantidade de armas de “fabricação” doméstica, incluindo bombas, barras e canos de ferro, alguns ostentando pregos nas extremidades. É um fato que, infelizmente, têm-se repetido em nossa cidade e no resto do país. Para alguns, o “amor” pelo seu time precisa ser reconhecido através dessas demonstrações da fidelidade representada por um insano e inconsequente ódio aos adversários.

Uma charge recente, publicada em rede social, mostra um casal em dois momentos, diante de uma tela de TV. Na primeira, em 2020, vendo desenho estilizado do vírus do covid-19, um deles fala: “…quando a pandemia terminar seremos mais humanos”. Na seguinte, a mesma tela, em 2022, exibe imagens de destruição, encimadas pela palavra GUERRA, nitidamente, uma alusão à invasão da Ucrânia pela Russia. A publicação, simples, porém tocante, e os episódios da violência contra os times nos induzem a uma reflexão desagradável, mas tristemente verdadeira: o homem continua sendo o lobo do homem, conforme o filósofo inglês Thomas Hobbes, ao perceber que o homem será sempre inimigo do seu semelhante.

O romântico otimismo da primeira imagem do casal do desenho era provocado pela onda de solidariedade derramada através da colaboração internacional no combate ao vírus avassalador, fazendo crer aos ingênuos mortais que a humanidade, finalmente, havia encontrado uma via comum para o entendimento e a concórdia, não obstante os interesses individuais e nacionais. As nações, mesmo sob a legenda dos seus próprios “ismos”, teriam percebido que só uma união de propósitos e necessidades seria capaz de estancar – ou minimizar – sangrentos e destruidores ódios históricos, na luta contra um invisível “inimigo” comum e igualmente deletério.

 A própria História, como lição e ciência, demonstra que poucas vezes – ou nunca – isso aconteceu. As alianças políticas e a camaradagem social ou religiosa sempre foram movidas pelos interesses individuais de pessoas e países. As nações mais desenvolvidas devem seu progresso à expropriação e à exploração de bens e braços alheios. Portugal e Espanha, por exemplo, são protagonistas das maiores vilezas sistematicamente perpetradas contra a África Negra e as populações indígenas da América do Sul, praticamente dizimadas pelo sufocamento da sua cultura, pelo trabalho escravo, violenta e cruelmente forçados a produzir e minerar riquezas desejadas pela ganância dos europeus. Os Estados Unidos, nascendo como nação e potência, também devem sua pujança à usurpação de terras indígenas e, com emergentes arrogância e avidez, beneficiaram-se do que alguns chamam de “uma das maiores tragédias da humanidade”, a escravidão negra.

Nos séculos e milênios anteriores, quando a humanidade experimentava o nascimento das embrionárias civilizações, era impossível prever o nível de progresso que o mundo alcançaria. Atingimos, até agora, um nível de transformações sociais que não poderia sequer ser imaginado pelo mais clarividente e profético dos antigos. Porém, o fruto dessas maravilhosas e importantes conquistas materiais não foi capaz de gerar o homem ideal, sonho dos filósofos. Continuamos iguais aos nossos ancestrais, atribuindo a deuses ou a demônios as nossas decisões e as nossas vitórias ou fracassos.

Eu sei que não somos todos assim. Deve haver no mundo não um salvador de homens, um caudilho deífico que nos conduza para a iluminação, mas, talvez, alguém ou algo que nos ensine a sublimar a pesada herança de pertencer ao gênero humano.

 

 

 

 

Alberto da Hora – escritor, músico, cantor e regente de corais

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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