PONTO DE VISTA DE ALFREO BERTINI

 

Riqueza natural e pobreza vocacional: as desigualdades no nosso futebol (II) – 

A riqueza natural do nosso futebol parece atuar em duas direções favoráveis. Irei explicar.

A primeira, está na inegável capacidade brasileira de formar talentos para o campo de jogo. Uma virtude que une cronistas de pensamentos antagônicos, de Eduardo Galeano a Nelson Rodrigues. Deles, envoltos nas suas paixões, extraio uma comum e sublime percepção de que o futebol é como uma arte dançante. De dons, sons e tons distintos, onde a bola é tratada no gramado como uma obra: esportiva por natureza e artística por sentimento. Apesar da raridade de talentos, o bom atleta é dito patrimônio, um ativo contábil, sinônimo de riqueza.

A outra, está no indiscutível potencial de se atrair vultosos recursos financeiros. Esse atributo tão especial, que envolve a qualidade técnica dos “artistas da bola”, representa um elemento decisório para alguns investimentos em marketing das empresas. É daí que as cifras começam a fazer do futebol um setor de enorme significado econômico.

Da junção desses pontos distintos, consegue-se entender a ordem de grandeza do negócio econômico que hoje o futebol projeta. Só que a percepção da natureza desse ofício, tem sido gradualmente desperdiçada. Basta um observador atento mirar para o que acontece no ambiente nacional. A força do que parece ser natural se entrega ao que representa ser vocacional. Ou seja, a sutileza de uma riqueza aparente se entrega a dureza de uma pobreza consequente. Também em duas direções.

Por um lado uma pobreza na expressão comportamental, dado o sentido de se ter construído um modelo de competições esportivas que privilegia a concentração. Haja coeficiente de Gini para medir o quanto o futebol brasileiro marcha para uma “europeização” quase ao estilo espanhol. Ou seja, um oligopólio de equipes que tem construído um “núcleo protagonista” cada vez mais distante da “órbita coadjuvante”, absolutamente  despreparada para o desafio das formas de competição e dos meios de sobrevivência.

Com isso, perde-se o que entendo como a motivação maior do torcedor: uma competitividade que lhe habilite a ser um potencial vencedor. Constrói-se uma vocação estúpida de que ser campeão é privilégio para poucos. Pior: ignora-se uma possibilidade ainda maior de mercado consumidor, haja vista que o modelo se satisfaz com o tamanho ditado por uma minoria que detém a parcela maior da renda. Bem a cara do Brasil.

A outra pobreza é estrutural e bem mais vocacionada, por conta de valores éticos e conceitos de gestão que só têm compromissos com o irracional e o amadorismo. É de se lamentar que a maioria dos clubes esteja em péssimas condições financeiras, à mercê de endividamentos públicos e privados, que resultam em danos profundos às suas imagens de gestores. Uma situação que termina por expor os clubes às dificuldades de captação de patrocínio e às inevitáveis perdas de ativos. Ou seja, óbices que não se afinam com o conceito de “compliance” hoje considerado pelas empresas, nem muito menos com a proposição de transformar os clubes em empresas.

Não contar com atletas talentosos e daí se ter jogos sem qualidade técnica, são situações que já revelam o porte do problema. Tolerar ainda os malfeitos de gestão só servem para dar o tom do fiasco pelo qual o futebol brasileiro tem-se organizado.

Enquanto isso, nessa visão estreita de fazer um futebol para poucos, a CBF consagra um modelo concentrador, capitaliza-se com vultosas verbas de patrocínio e faz do seu pacto federativo, uma distribuição de recursos pautada pela subserviência. Uma velha e viciada política que se autossustenta num erro sem fim.

O mundo se move hoje em torno de eixos estruturantes, embasados na formação e na sustentabilidade. Valeria rever os conceitos na direção do modelo de um “futebol mais”: mais profissionalizado (na gestão), mais formador (na base) e mais justo (na distribuição dos recursos e na competitividade). Cabe torcida.

 

 

 

 

 

 

 

Alfredo Bertini – Economista, professor e pesquisador, ex-presidente da Fundação Joaquim Nabuco e colunista da Folha de PE

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
Ponto de Vista

Recent Posts

COTAÇÕES DO DIA

DÓLAR COMERCIAL: R$ 5,1700 DÓLAR TURISMO: R$ 5,3630 EURO: R$ 5,9650 LIBRA: R$ 6,9480 PESO…

13 horas ago

Em julgamento inédito, STF vai decidir se um de seus próprios ministros deve ser investigado

O STF - Supremo Tribunal Federal se reúne nesta terça-feira (15), no plenário, para decidir…

14 horas ago

Cunhado de Vorcaro, pai, ex do banqueiro e ‘Sicário’ enviaram quase R$ 20 milhões à Igreja Batista da Lagoinha, aponta Coaf

Fabiano Campos Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, transferiu R$ 19,2 milhões em 26 operações para…

14 horas ago

PF apreende R$ 1,5 milhão e investiga recursos não declarados em campanha; deputado Luiz Eduardo nega irregularidades

A Polícia Federal (PF) apreendeu nessa segunda-feira (14) mais de R$ 1,5 milhão em espécie…

14 horas ago

Cacique Raoni é diagnosticado com câncer aos 94 anos e recebe cuidados paliativos em MT

O cacique Raoni Metuktire, de 94 anos, foi diagnosticado com câncer no sistema digestório e…

14 horas ago

Em derrota para Trump, Suprema Corte barra plano de Trump de restringir voto pelo correio nas eleições de novembro

A Suprema Corte dos EUA recusou-se, nessa segunda-feira (14), a permitir que o Serviço Postal…

14 horas ago

This website uses cookies.