A DESCRENÇA POLÍTICA É QUESTÃO DE QUALIDADE E NÃO DE TEMPO –
As eleições nos EUA e o que se projeta hoje para o Brasil parecem sinalizar para uma segurança democrática. O fenômeno dos “outsiders”, assumidamente negacionista dos sistemas partidários e dos “políticos profissionais”, parece ter arrefecido.
Há 5 anos, que uma onda fantasiada de renovação política tomou impulso e contaminou muita gente decepcionada. A inércia dos partidos e o fracasso ético de lideranças trouxeram à tona uma descrença generalizada da política. Tudo foi questionado. Até mesmo as eleições livres, por meio de teses conspiracionistas sobre a credibilidade das votações e apurações.
No bojo de fragilidades, ensaiaram-se os novos líderes, forjados de fora do modelo e amparados pelos “partidos algoritmos”, que deram substância a uma sinistra “democracia digital”. Quando não dependentes desse movimento, foram candidaturas que se atreveram a vender seu “negacionismo” pelos meios convencionais. O danado é que tivemos candidatos fazendo questão de assumirem “não ser políticos” e, por outro lado, muita gente contagiada por essa tolice discursiva.
Fico admirado ao ouvi-los assumirem a aversão pela política. São mantras como “nunca fiz política”, “sou o novo” e “sou empresário, militar ou policial “. Como se tudo isso anulasse vínculos partidários, subjugação a “donos” de siglas e uso dos recursos legais. Além dessas idiossincrasias, muitos não conseguem esconder que transpiram populismo barato, aliado ao fato de um desconhecimento do que seja a máquina pública.
Na verdade, neste sentido aqui relevado, a questão política não é temporal. Não se trata de escolha entre a velha ou a nova política. Isso é peça de ficção para iludir eleitor. O que tem que ser entendida e fortalecida é a qualidade. Afinal, nesse ponto o que se considera é se a política é boa ou má, para efeito dos interesses gerais da sociedade. E tudo sendo feito sob os princípios basilares da democracia.
No âmago dessa história, o que carecemos no Brasil é de formação política de qualidade. E por meio de partidos fortes. A ausência desse valor tão vital à maturidade da nossa democracia foi o que levou a tantas tolices conceituais.
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Alfredo Bertini – Economista, professor e pesquisador. Ex-Presidente da Fundação Joaquim Nabuco
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