PONTO DE VISTA DE ALFREDO BERTINI

REFORMA TRIBUTÁRIA: O “DIABO” ESTÁ NOS DETALHES (PARTE II) – 

No texto anterior, fiz considerações sobre a relação entre a desigualdade de renda e a reforma tributária. É preciso agora dar o tom dessa revisão.

O ponto a considerar da reforma é a injustiça. Isso se deve à opção pelo caráter regressivo dos tributos, que onera os mais pobres. Como a carga tributária incide mais sobre o consumo do que a riqueza, o sistema é rigoroso com os contribuintes que compõem a base da pirâmide social. 25% da renda dos 2% mais pobres representam pagamento de impostos indiretos. Enquanto isso, 7% da renda de 0,2% mais ricos representam sua contribuição à receita. Será válido então tributar a riqueza?

Sim, parece claro. A primeira reação é natural: reduzir a carga indireta e ser incisivo na tributação sobre a renda (as grandes fortunas, os lucros e os dividendos) e a propriedade. Isso será possível, pois a ideia não conflita com a proposta da PEC 45 em trâmite no Congresso (que unifica PIS, CONFINS, IPI, ICMS e ISS). Mas, nem sempre o justo se traduz em eficácia. É preciso cuidado com falsas ilusões e isso impõe limites. Por mais que seja baixa a proporção dos impostos sobre a renda e a propriedade, com relação à carga tributária total (22% , enquanto a participação dos impostos indiretos chega a 50%), alguns aspectos do estágio de desenvolvimento do País terminam por influir.

Essa contradição tem suas razões. Apesar do senso de justiça, não há grandes margens por avançar. Isso se deve porque:

1) há uma alta faixa de isenção de contribuintes, pois de 29 milhões de declarante, apenas 18 milhões pagam o IR;

2) quanto maiores as faixas de renda sujeitas às alíquotas de tributação, menores são as quantidades de contribuintes (quem ganha acima de R$ 28 mil está na faixa de 1% dos mais ricos); e,

3) mesmo que seja necessária a taxação de lucros, dividendos e grandes fortunas, é razoável perceber que pelo quantitativo de contribuintes e pela necessidade de limitantes (há risco de fuga das rendas), o resultado sobre as receitas é pequeno.

Dadas essas considerações, no próximo e último texto, abordarei a atual proposta do Governo, a PEC 45 e, a partir delas, uma conclusão.

https://www.instagram.com/p/CDSlDY6A9Wi/?igshid=1662iuymcnzcr

 

 

 

Alfredo Bertini – Economista, professor e pesquisador. Ex-Presidente da Fundação Joaquim Nabuco

 

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
Ponto de Vista

Recent Posts

COTAÇÕES DO DIA

DÓLAR COMERCIAL: R$ 4,9970 DÓLAR TURISMO: R$ 5,2030 EURO: R$ 5,8470 LIBRA: R$ 6,7620 PESO…

18 horas ago

Efeitos da guerra no Oriente Médio chegam à construção civil, um dos setores mais importantes da economia brasileira

Os efeitos da guerra no Oriente Médio chegaram a um dos setores mais importantes da economia brasileira.…

19 horas ago

Anvisa suspende venda de xaropes com clobutinol

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou, nesta segunda-feira (27), a suspensão imediata da venda…

20 horas ago

Harry Styles e Zoë Kravitz estão noivos, diz revista

Harry Styles e Zoë Kravitz estão noivos, afirma a revista "People". O cantor e a…

20 horas ago

Empresário é preso em nova fase de operação que investiga fraude milionária no RN; polícia suspeita de vazamento de informações

A Polícia Civil do Rio Grande do Norte deflagrou, na manhã desta terça-feira (28), a…

20 horas ago

Superiate ligado a oligarca russo próximo de Putin cruza o Estreito de Ormuz

Um superiate ligado ao bilionário russo Alexey Mordashov atravessou o Estreito de Ormuz nesse sábado (25),…

20 horas ago

This website uses cookies.