Ódio e Destruição na Ignorância Econômica Sobre Criação e Conhecimento –

A Faca Cega que Corta e Sangra as Políticas da Cultura, Ciência e Tecnologia

Já tive a oportunidade de usar a coluna para externar todo comedimento com relação aos temas presentes no meu cotidiano. Por mais que me esforce em não repeti-los, mesmo que sempre por enaltecer suas notórias dimensões econômicas, a expressão do ódio e a vontade de destruir são posturas intrínsecas à forma de agir do governo. Refiro-me aos setores da cultura, ciência e tecnologia, alvos sistemáticos de instintos exterminadores, que dominam gabinetes do planalto e da esplanada.

Poderia aqui insistir na dose em 3 D, que bem caracteriza essa forma adicional de negacionismo doentio. Mas, o trinômio do desconhecimento, da desinformação e do desinteresse é mínimo diante de um ódio destruidor motivado por rancores ideológicos. O danado é que a insistência política desse pacto pela maldade extrapola e atropela. Que se danem os preceitos constitucionais e as decisões republicanas dos demais poderes. O que vale nessas horas é uma arbitrariedade inescrupulosa, que de posse de uma faca cega nas mãos, corta e sangra a sobrevivência dos que dependem da criação cultural e do conhecimento científico e tecnológico.

Toda essa crueldade faz sentido, quando o retrato desses governantes é emoldurado pela frieza e insensibilidade de quem não costuma frequentar ambientes fazedores de culturas. E espaços acadêmico-institucionais de quem transforma pesquisas em méritos científicos ou conquistas tecnológicas. Não há como esperar habilidades de quem, acostumado com monomotores, vê-se diante dos novos jatos supersônicos. O esforço não buscado para enfrentar o desafio é a expressão da ignorância. Enfim, como se pode ter uma humanização prioritária integrada à economia, quando os pilares educacionais da formação cultural e do domínio da ciência e da tecnologia são publicamente negados?

Para dar nitidez a tamanho negacionismo, o governo voltou a atacar os setores, com mais ameaças, exercidas nas formas de cortes de recursos. A faca cega operou na base de custeio que dá nutrição aos fundos setoriais das três áreas, provavelmente em nome de um rearranjo na LDO. Na visão do governo, justo para dar alguma sobrevida às políticas sociais mal planejadas, vindas à tona pela pauta populista, usada e abusada na atual cena eleitoral. Em situações assim, o que interessa é exercitar o negacionismo, até mesmo numa tática enganosa, que tenta convencer a sociedade sobre a decisão de não priorizar os setores da criação e do conhecimento.

No exemplo do caso que envolve a cultura, a arbitrariedade de impor uma Medida Provisória, para não liberar agora os recursos das leis emergenciais, é algo que extrapola aquela definição 3 D. Isso porque a iniciativa representa um novo embate político, na medida em que ignora a decisão do Congresso Nacional em derrubar os vetos presidenciais. Tão importante quanto destacar aqui a grandeza econômica da cultura é poder lembrar aos insensíveis que os recursos são originalmente do setor e cabíveis para situações emergenciais. Tomar esse tipo de atitude e alinhá-la com uma burocracia além da conta, é ofício declarado de confronto. Não dá pra desconsiderar o viés ideológico de quem trata produtores e artistas como inimigos mortais.

Uma triste configuração de intolerância, exercida nos mais diferentes modos de extermínio. Uma insanidade fora de tempo, na qual os sensos de cidadania e humanismo são jogados no lixo.

 

 

 

 

 

 

Alfredo Bertini – Economista, professor e pesquisador, Ex-Presidente da Fundação Joaquim Nabuco

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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