O “SOBRENATURAL DE ALMEIDA” PAGARÁ AS CONTAS? –

O Alto Preço Econômico e Instirucional: De Kamikaze a Miojo

Por ser inexata a economia costuma externar sua sensibilidade diante do imprevisível. No entanto, confesso aqui que desconhecia a força dessa variável, que diante do seu modo imprevisto de ser, de repente pode assumir uma inusitada responsabilidade: pagar as contas. Coisas do além?

Bem, quero aqui dizer que esse atributo parece ser postura comum das autoridades públicas. Afinal, nas suas missões de “caras de pau” descumprem leis e regras, furam tetos orçamentários e até criam despesas secretas em forma de emendas parlamentares. O fato é que isso tudo pode ser atribuído aos que têm poderes de cobrir os deficits fiscais gerados. Só mesmo o sobrenatural pode calar a boca e a pena dos inúmeros colegas economistas, céticos quanto ao futuro econômico do país, sobretudo, para o período 2023/24.

Cabe-me aqui um paralelo literário, para pautar o efeito de qualquer vetor que se ponha como o imponderável do absurdo. Para isso, o genial conterrâneo Nelson Rodrigues chegou a criar um personagem. Refiro-me ao simpático fantasma “Sobrenatural de Almeida”, criatura gerada pelo lado de cronista desportivo do gênio, para justificar tudo de ruim que acontecesse com o seu time de coração – o Fluminense. Por mais que o “tricolor das Laranjeiras” estivesse um desmantelo dentro do campo, a velha transferência de responsabilidade se via reservada para o sobrenatural exercido por um fantasma. Nada que não me permita aqui divagar e dizer que qualquer semelhança não é ficção. Afinal, não obstante o desmantelo socioeconômico que o país tem atravessado vale não só dizer que são derivados do imprevisível, dado que é indiscutível a competência do governo na solução dos problemas. Desse pressuposto, o que mais desejo saber é se o “Sobrenatural de Almeida” pagará a conta que irá chegar mais à frente.

Tomo como referência bem atual o absurdo dessa PEC imediatista, com cara e jeito de populismo barato. Claro que só para quem o canta pelos quatro cantos, porque é bastante caro para os que terão que pagar a conta. De fato, há um alto preço econômico e institucional que já está colocado sobre os ombros da nação. Uma carga pesada.

Apesar do requinte do disfarce, a verdade nua e crua é que o poder político (aqui exercido pelo Executivo e Legislativo) conseguiu transformar sua atitude de kamikaze, num jeito “Miojo” de ser. Ou seja, não importa a tragédia em si dessa estupidez de arremessar a conta pela janela. Na real, o mais importante é que o estrago futuro seja politicamente assimilado e de modo instantâneo. Afinal, é preciso fazer jus a uma sobrevivência eleitoral, extensão natural de uma postura de governo que só se preparou para isso. Nesse jeito de proceder, legislações,, transparências e éticas são meramente descartáveis. Os efeitos desse gasto bilionário (que é digno para quem for direcionado para a política social, mas drástico para quem for indicado para a política econômica) representa um artefato explosivo, que o sentido kamikaze bem se ajusta. Pior que isso, é o sentido Miojo, de quem espera algum efeito político instantâneo, num esforço escancarado pela reeleição. Com benesses secretas para parlamentares e bondades descaradas para convencer eleitores.

Inspiro-me no repertório cáustico de Nélson e reafirmo mais uma das suas máximas: “os homens de bem são apenas cadáveres mal informados, que não sabem de suas mortes”.

 

 

 

 

 

Alfredo Bertini – Economista, professor e pesquisador. Ex-Presidente da Fundação Joaquim Nabuco

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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