PONTO DE VISTA DE ALFREDO BERTINI

O Quarto “D” da Trágica História da Cultura Como Atividade Econômica (1)

Sobrevivência na Diversidade das Produções Culturais e Baixa Assimilação dos Conceitos Econômicos

Em quase um ano e meio de coluna, no caderno de economia deste jornal, raras vezes abordei as questões econômicas que envolvem a rica e plural produção cultural do nosso país. Isso sempre causou estranheza entre pares do setor, justo pelo meu envolvimento direto com o mesmo, desde 1994. De fato, desprovido de qualquer modo de soberba, um envolvimento que me propiciou o conhecimento em três linhas de frente: 1) como produtor privado há 25 anos; 2) como gestor público, atuando do outro lado do balcão, sobretudo, como secretário nacional do Ministério da Cultura por duas vezes; e, 3) como economista, professor e pesquisador, com livro publicado e inúmeros artigos e palestras, no tema Economia da Cultura. Assim, mesmo com esse razoável referencial, procurei evitar o uso do espaço, para não transparecer junto ao público leitor, algo que pudesse ser entendido como uma defesa de interesse pessoal. Longe disso, portanto, procurei manter com esse tema, bem mais do que o equlíbrio que me esforço em lidar com os demais. Afinal, vale o título da coluna: nem 8, nem 80.

Desta vez, estimulado por leitores do meio e até muito mais, pelos que estão fora dele, sinto-me bem à vontade para tratar do tema. É que, infelizmente, não só a situação geral do setor, em profunda depressão, permite-me trazer à discussão o tamanho desse estado crítico. Pior que isso, é constatar a insistência por parte de segmentos da sociedade, em dar guarida a um ambiente que pode levar a produção cultural ao fundo do poço, contexto esse pautado pelas tolices de um embate ideológico, alimentado pela inflamável antecipação do clima eleitoral.

Uma vez que aquela minha omissão justificada do debate já foi colocada, não posso desperdiçar a oportunidade. E a delicadeza do tema irá me exigir uma extensão maior na análise, para a qual peço a paciência e atenção do leitor. É por essa razão que o texto terá mais duas partes, além desta.

Com isso, permitam-me os interessados que seja didático o suficiente, para que possa deixar bem clara minha intenção: mostrar que quase nada evoluímos no entendimento dos aspectos econômicos da cultura. E quanto mais nos distancismos dos conceitos da economia, que façam a sociedade assimilá-los na sua grandeza, mais a produção cultural continuará sendo vista como uma espécie de “diletantismo preconceituoso”, um ofício marginal. Para alguns que assim procedem, por notórios desconhecimento, desinformação e desinteresse. E se não bastassem essa visão em 3 D, eis que se põe na pauta um sutilíssimo “quarto D”, num esforço contumaz que se propaga continuamente em gestos e atos: a destruição do setor cultural. Não percebem tais ideólogos do sentimento anti-cultura, que essa falta de empatia pelos que trabalham pelo setor, representa uma espécie de crime de lesa-identidade. Se alguns velhos esforços por homogeneizar a cultura já representavam um problema identitário, desenvolver um esforço extra para pô-la na lona representa algo mais do que isso. Pode ser daí gerado um problema civilizatório.

Posta essa preocupação pelo quarto “D”, cabe-me mostrar didática e exaustivamente, que estamos bem longe de exercer na plenitude uma atividade econômica. O desconhecimento do papel econômico é geral, até mesmo em parte do meio cultural, que ainda resiste ao exercício empreendedor. A desinformação está, sobretudo, no poder público, que ainda não considerou gerar um sistema de informações estatísticas que dê robustez econômica, o que deixa o resto da sociedade a considerar a cultura como ofício de diletantismo. Por fim, o desinteresse, tanto público como de inúmeros agentes privados, em proporcionar ao setor cultural um mínimo reconhecimento de que seja capaz de gerar e empregos e rendas, até mais do que tantos outros setores.

Bem, no próximo texto, irei dissecar melhor essas premissas, para delas mostrar que a cultura, por seus próprios meios, é uma atividade digna dos méritos conceituais que norteiam a economia.

 

 

 

 

 

 

Alfredo Bertini – Economista, professor e pesquisador. Ex-Presidente da Fundação Joaquim Nabuco

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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