PONTO DE VISTA DE ALFREDO BERTINI

 

A PÁTRIA QUE PARIU UM PÁRIA: A SEGUNDA DIMENSÃO DA CRISE –

Por conceber a política externa como um vetor significante, na minha modesta visão de compreender a dinâmica da economia brasileira, julgo que tenha sido aqui bem insistente nas análises críticas que fiz sobre o tema. Afinal, os erros e omissões executados pela autoridade diplomática desde 2019 causaram tantos estragos, que qualquer senso de diálogo e recuperação exigirá tempo para uma reparação.

Trata-se de um infeliz contrassenso. Isso porque a diplomacia brasileira sempre foi pautada pelos seus convencionais exemplos de equilíbrio político e competência técnica. Portanto, um histórico desempenho institucional muito bem fundamentado e consolidado, que se consagrou por transformar eventuais litígios em acordos ou tratados.

Em pouco mais de dois anos, a banda larga e lúcida da sociedade brasileira assistiu ao desmoronamento da essência do Itamaraty. Longe da excelência de um ofício de moderação com sabedoria, foi então concebida uma forma de gestão insólita, sustentada por um espectro ideológico devoto das mais intrigantes teses conspiracionistas. Apostou-se na desconstrução e na inação diante da complexidade e da diversidade de um mundo que requer equilíbrio e sensatez. Nesse jeito de ser, a política externa ficou dependente de argumentos e discursos estéreis, que vêm atuando como agentes catalisadores de combate ao que chamam de globalismo
multilateralismo, climatismo e outras variantes inapropriadas. Trocou-se uma rica história de diplomacia sem ideologia, por um pobre modelo de ideologia sem diplomacia. Como diagnósticos equivocados criam terapias erradas, fez-se conceber a regência do caos, na diplomacia brasileira.

Nesse ritmo, o ambiente político interno, permeado pelo dogmatismo extremo, teve uma longa e conturbada “gestação” até a confirmação da pandemia. Infelizmente, essa grave crise sanitária pariu um ser estranho para uma sociedade acostumada a outras conquistas. Assim, esse simbolismo na forma de “gestação”, combinado com a gravidade e extensão da pandemia, revelou para a sociedade uma fratura exposta no seio do Itamaraty. Como o chanceler da ocasião admitiu não ser o isolamento um problema, digo que a pátria pariu um pária. Ou seja, a postura ideológica da nossa diplomacia, que foi capaz de isolar o país pelo conjunto de uma obra de dissabores (sinofobia, política ambiental, direitos humanos e outros temas correlatos), mostrou-se negligente nas articulações políticas e comerciais. Em particular, com relação à falta de solução perante a carência dos imunizantes.

Atingiu-se o fundo do poço. De qualquer forma, é preciso reiniciar o processo de recuperação. Ou seja, diante do que escrevi antes, essa segunda dimensão do problema socioeconômico, agora traduzido pela política externa e agravado pela pandemia, também carece da “esperança do avesso”. Esta, significa rever a política externa e reenquadrar o Brasil no ambiente de um mundo realista, que compactue com o estágio da boa consciência pelos novos valores da humanidade. É voltar a fazer do ofício da diplomacia a arte de fazer amigos, diametralmente oposta à prática atual de estimular o confronto e fomentar inimigos.

Enquanto isso, além das nossas fronteiras, a economia mundial dá sinais de retomada do fôlego perdido. Por um lado, os EUA parecem dispostos a puxarem os vagões, mesmo com a resistência da crise, posto que sua economia voltou aos trilhos pelo impulso dos gastos públicos e pelas campanhas de vacinação. Por outro lado, a China, vista pela capacidade de produzir os insumos para imunização e os próprios imunizantes, além da sua capacidade de influir no bom momento vivido pelo mercado de commodities, dá sinais de vitalidade.

Além da insistência por negar o óbvio, repetir o erro de perder as oportunidades e aprender com as experiências, parecem ser ainda velhos males políticos e econômicos da genética brasileira.

Mais dificuldades à vista, para uma política externa que tem esperança pelo avesso.

 

 

 

 

 

Alfredo Bertini – Economista, professor e pesquisador, ex-presidente da Fundação Joaquim Nabuco

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
Ponto de Vista

Recent Posts

COTAÇÕES DO DIA

DÓLAR COMERCIAL: R$ 5,0710 DÓLAR TURISMO: R$ 5,2780 EURO: R$ 5,8710 LIBRA: R$ 6,8240 PESO…

16 horas ago

Instagram e Facebook apresentam instabilidade nesta sexta

O Instagram e o Facebook apresentam instabilidade na manhã desta sexta-feira (12). Usuários relatam dificuldades para acessar as redes…

16 horas ago

Cerimônias de abertura da Copa 2026 no Canadá e EUA: horário, onde assistir e atrações

A Copa do Mundo 2026 é a primeira disputada em três países-sede — Estados Unidos, México e Canadá — e com três…

17 horas ago

IPCA: inflação desacelera para 0,58% em maio, mas alimentação em casa tem maior alta para o mês em 18 anos

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), considerado a inflação oficial do país, subiu 0,58% em…

17 horas ago

IBGE abre 95 vagas temporárias para o RN; salários chegam a R$ 4 mil

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) abriu nesta sexta-feira (12) inscrições para um…

17 horas ago

Justiça suspende concurso da PM no RN; Ministério Público pede retomada das provas

A 2ª Vara da Fazenda Pública da Comarca de Natal determinou a suspensão imediata das provas objetivas…

17 horas ago

This website uses cookies.