TÃO PERTO, TÃO LONGE: A DIALÉTICA DA RESILIÊNCIA EM DOIS ATOS –
A pandemia tem sido – e continuará a ser enquanto não for contida – pródiga em nos passar lições. Boas ou más, cabem a cada um de nós fazermos o devido juízo. É certo que algumas delas revelam suas contradições e formam uma espécie de dialética da resistência. Para mim, merecem reflexões.
De fato, a sociedade está submetida a uma prova diária de subsistência em distintas e conflitantes dimensões, sobretudo, as econômicas, as sociais e as psicológicas. Como exerço, por ofício, manifestações frequentes nas duas primeiras, arrisco-me em comentar sobre a outra frente do conhecimento, justo sobre certos aspectos psicológicos. Em sintonia com isso, esqueço qualquer inibição e torno públicas duas revelações. Desde já, conto essa história em dois atos.
Ato 1 – A Lição do Isolamento
Com a pandemia, comecei a aceitar que uma forma de entender o longe é estar por perto, mesmo que sem conseguir alcançar o que realmente se deseja. Nessa estranha condição a proximidade é uma lógica perversa, porque, contrariamente, ela pode se mostrar muito distante.
Explico melhor essa minha situação, porque ela é cabível para muitos, no meio dessa pandemia. O isolamento demarca um território que nos afasta de familiares, amigos e tantos outros que tinham antes uma escala emotiva que vai da atenção cordial ao carinho piegas. Isso claramente nos distancia, embora existam tantos outros meios que reforçam aquela velha proximidade que une sentimentos. Nesse momento, o que causa estranheza na alma é saber que seus entes querido estão na janela do outro lado da rua. A distância é curta, mas a circunstância impõe um limite cruel, que lhe desobriga daquele mínimo carinho. Sinto-me assim, à mercê de uma janela poderosa, que me faz recordar um desabafo de Clarice Lispector: “olho de longe, mas quero por perto”.
Simples assim: tão perto, tão longe.
Ato 2 – A Injustiça para os Quase 60
Esse mesmo sentimento de um perto cada vez mais longe se renova no quadro etário das prioridades para a imunização. Como é do conhecimento, um grupo de risco sujeito à contaminação está na faixa dos maiores de 60 anos. Dado esse parâmetro, a atual campanha de vacinação, fracionada pela escassez dos imunizantes, tem-se dado de modo gradual e decrescente, do limite mais alto até o limite mínimo dos 60 anos.
A questão que quero destacar diz respeito justamente ao mínimo dos 60 anos. Estando o paciente muito próximo desse limite e sabendo que os grupos subsequentes não serão focados na idade, quem fará aniversário, por exemplo, dois ou três meses à frente terá que aguardar até sua data, para cadastrar e depois agendar.
Não me parece que seja justo que os sexagenários do ano tenham que esperar. Por ser o limite etário mínimo do chamado grupo de risco prioritário, penso que seja factível se incluir todos os nascidos em 1961 (farão 60 anos dias ou meses após).
Esse é mais um efeito psicológico da dialética da resiliência criada pela pandemia, que põe no consciente da gente um limbo conflituoso entre o perto e o longe. Assim, o calendário de imunização do MS proposto ao SUS criou a “síndrome dos quase 60”. Um grupo que viverá sob a expectativa da liberdade, enquanto as vacinas chegam no ritmo das tartarugas.
De novo, simples assim: tão perto, tão longe.
Alfredo Bertini – Economista, professor e pesquisador, ex-presidente da Fundação Joaquim Nabuco
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