PONTO DE VISITA DE ALFREDO BERTINI

 

O Bom Discernimento Entre a Cadeira e a Caneta –

O intelectual e ativista político José Ortega y Gasset registrou algo lapidar: “liderar não é tanto uma questão de mão pesada, mas é bem mais de assento firme”. Tão valiosa quanto essa conclusão é saber reconhecê-la enquanto aforismo incomum nos acirrados ambientes políticos atuais. Se não há sequer cadeira, o uso obtuso da caneta tem sido práxis. Por isso, em complemento ao mérito de Ortega y Gasset, julgo oportuno validar um entendimento de que, a cadeira e a caneta juntas, poderiam contribuir para aprimorar o reconhecimento de líderes. Ciente de que, em qualquer contexto, a cadeira e a caneta fazem seus protagonismos políticos.

Por um lado, o peso da cadeira é capaz de revelar a força impositiva da reflexão. Senta-se para ouvir, ponderar e decidir. Os pés costumam estar fixos no chão. Daí, pode-se alcançar a sensatez de um racionalismo concreto. Por outro lado, o que pode aparentar como o peso da mão, é algo capaz de colocar sobre a caneta a dúvida do agir com equilíbrio. Cabeça e mãos costumam estar livres. Daí, sob riscos, pode-se alcançar a insensatez de um emocionalismo abstrato.

Não tenho aqui uma pretensão determinística, com relação ao comportamento de quem usa a cadeira e a caneta, seja em qual dose for. Se para o bem ou o mal de qualquer política pública. O que me leva à análise é buscar mais um meio de compreensão, que justifique esse momento político insólito que o país atravessa. Afinal, devido à pluralidade dessa crise, só me sinto levado a entendê-la como a mais extensa e danosa da história deste país.

Essa é uma triste realidade que compromete nosso ideal de processo civilizatório, num nível capaz de orgulhar qualquer nação. O fato concreto que se extrai disso é que um mínimo exemplo de liderança política, na dimensão de estadistas, revela-se como um produto raro. Qualquer esforço que me faça mirar para algum nível de formação desses quadros, revela-se como mais um exemplo de negação, entre tantos.

Uma vez aceito esse estado delicado da crise, parece-me um retrocesso se argumentar em cima de um tema antigo como o marco civilizatório. Contudo, é evidente que a brutal transformação assimilada pela sociedade em cada quadrante do mundo, além de ter sido bem absorvida, traduziu-se noutros impactos distintos, que logo se mostraram naturalmente relevados. Ou seja, com tanta diversidade a ser considerada, tudo se resumiu num certo nível de respeito com relação às diferenças. Isso dentro de um padrão de normalidade.

No enranto, diante do que se assiste hoje nos embates políticos, os avanços não têm sido tratados com a uniformidade desejada. Em paralelo, a carência de líderes acostumados em lidar com o contraditório, também explica as dificuldades de percepção desse novo mundo. Enfim, a política tem-se tornado prisioneira de turbulências fabricadas, uma espécie legitimada de empreendedora de crises. Como diria um reles ator político desse caos nacional, no seu jogo bruto, fez-se despertar os “instintos mais primitivos”.

Afinal, qual será o vetor resultante dessa tragédia anunciada, que deixa o país à beira do caos? Bem, desde que a cadeira e a caneta não são guiadas pelo interesse público na alçada governamental, assim como, o país se mantém inerte e tolerante diante do velho maniqueísmo ideológico, uma grande parcela da sociedade se sente mergulhada na orfandade, diante da imensidão da crise.

Depois dos raros ciclos de prosperidade causados pela boa convergência entre a política, a economia e o social, nesse momento crítico que se confunde com a própria indignação, o saldo de lucidez termina por ser um resíduo. Resgatar o marco civilizatório virou prioridade, apesar de um processo eleitoral antecipado, que só tumultua.

Iniciar o exercício do bom discernimento entre a cadeira e a caneta representa um ritual necessário, na intenção de se alcançar um ambiente político e institucional favorável. O alvo está num novo paradigma, com crescimento econômico sustentável, justiça distributiva e valorização do estado democrático de direito.

Aliás, sonhar é o primeiro passo para a conquista do novo. E, mais do que nunca, chegou a hora do Brasil se encontrar dentro dele mesmo. Ao seu estilo, do seu jeito, com suas métricas tão diferenciadas quanto a riqueza dada pela sua diversidade. Embora o país já tenha iniciado seu envelhecimento demográfico antes mesmo de alcançar um padrão econômico de riqueza, o importante é saber que há ainda esperança para iniciar com seu realismo um projeto palpável de utopia. Simples, assim, porque há vida inteligente no Brasil, suficiente para ainda vê-lo com essa fome de futuro não saciada.

 

 

Alfredo Bertini – Economista e colunista da Folha de PE

Ponto de Vista

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