Renan e Nuremberg –

Relator de CPI deve esperar até o término da mesma para, baseado em provas técnicas, apresentar suas conclusões. Isto não vale para Renan Calheiros. Ao abrir a sessão em que a Secretária do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro, faria seu depoimento, Renan extrapolou sua função. Sua ânsia em culpar Bolsonaro, em vez de avaliar as ações dos governos federal, estadual e municipal no combate à epidemia, era tanta que começou a apresentar o esboço do que será seu futuro relatório. E passou a fazer pré-julgamentos politizando ainda mais a CPI.

Resolveu lembrar o Tribunal de Nuremberg tentando intimidar a convidada. E fez uma comparação esdrúxula. Disse que havia uma “semelhança perturbadora no comportamento de algumas altas autoridades que testemunharam aqui na CPI” e alguns oficiais nazistas, como Goring. Fez questão de dizer que tais oficiais fizeram “parte de uma máquina da morte”. Sugerindo que os depoentes anteriores seguiam este padrão. Mayra o desmentiu. Levou mais de 300 médicos à Manaus, via aérea, para tentar salvar vidas. Não só Renan, mas, também, o senador Humberto Costa não sabia disto.

Na Alemanha nazista houve uma rígida verticalização militar do poder que não se pode comparar com a do governo civil brasileiro. Até porque lá reinava o totalitarismo e aqui uma democracia capenga. Caso Renan ache que houve cristalina cadeia de comando envolvendo os depoentes, que não teriam autonomia para agir pois seriam rigorosamente punidos pelo Presidente, cabe demonstrá-lo. Até agora, não o fez. Pode ser que o faça. O senador Alessandro Vieira, um dos melhores integrantes da CPI, diz que a mesma está próxima de responsabilizar criminalmente Bolsonaro. Por sua vez, o senador Otto Alencar diz já ter certeza de que o governo federal atuou com “irresponsabilidade criminosa”. Opinião similar à do senador Omar Aziz. No comando da CPI não deveria fazer, neste momento, este tipo de comentário. Por que são tão boquirrotos?

Entrementes, Renan estrebucha. Achando pouco, Renan desinformou os brasileiros. Disse que estava previsto a execução de Goring na cela. Na verdade, o Tribunal decretou o enforcamento do comandante da Luftwaffe e ele se suicidou um dia anterior ao ingerir uma cápsula de cianureto. Delirando, Renan disse que “em várias ocasiões durante o julgamento, o acusado exibiu filme dos campos de concentração nazistas e de outras atrocidades”. Obviamente, quem apresentou tais cenas foram os promotores do caso e não o réu. Este é o nível desta CPI.

 

*Publicado originalmente em O PODER, 1/6/21

 

 

 

 

Jorge Zaverucha – Mestre em Ciência Politica pela Universidade Hebraica de Jerusalém, Doutor em Ciência Política pela Universidade de Chicago; Professor titular aposentado do Departamento de Ciência Política da UFPE

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