Jacarezinho: algumas dúvidas –

Para o Secretário da Policia Civil, Allan Turnowski, a operação no Jacarezinho foi um sucesso. Segundo ele, “o que a Polícia Civil mostrou ontem foi técnica, foi maturidade, foi profissionalismo de mostrar à sociedade que aquele traficante que invadiu a casa de uma moradora, ele é inimigo de toda sociedade. Porque pode invadir sua casa na Zona Sul, na Zona Norte, na Zona Oeste. E a última barreira eram vocês (policiais). E vocês fizeram a missão de vocês. A inteligência já confirmou todos os mortos como traficantes. Dezenove com folhas corridas até agora”.

Há divergência sobre a narrativa do Secretário. O Presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB/RJ, Álvaro Quintão declarou que nem todos os mortos possuem antecedentes criminais. O fato é que um terço dos mortos não possuem processos criminais no site do Tribunal de Justiça do Rio. A Polícia alega ter informações próprias sobre o envolvimento dos mortos na prática de crimes. Uma investigação imparcial sobre o ocorrido é, praticamente, impossível de ser realizada. Por que todas as armas dos agentes envolvidos na operação não foram ainda recolhidas para o periciamento?

Já o subsecretário Operacional da Polícia Civil, Rodrigo Pereira foi mais reticente. Embora tenha defendido a ação policial, admitiu que não se pode “considerar um sucesso uma operação que termina com tantas vítimas”. E poderia ter sido mais, pois a estação Triagem do metrô só foi interditada após o início dos tiroteios.

O fato é que a Polícia entrou para cumprir 21 mandados de prisão, e apenas três deles foram cumpridos. Voltou com 28 mortos dentre eles um policial. Imagine-se a quantidade de mortos da operação caso ela fosse considerada imatura, amadora e sem técnica. Portanto, faltam 18 mandatos a serem executados. Nesta pisada teremos 504 mortos. A sociedade está disposta a aceitar isto? Não há um modo de se fazer operações mais cirúrgicas? Protegeria melhor vidas inocentes, inclusive, a dos policiais.

Chama atenção que foram deslocados 200 homens para cumprir tais mandados, afora o uso de helicóptero. A operação era para prender ou para executar os bandidos? Se fosse em Ipanema, caso um quadrilheiro saísse de seu esconderijo e entrasse no apartamento vizinho, a polícia entraria com um pé na porta e trocaria tiros correndo o risco de matar quem nada tinha a ver com a história? Ou adotaria uma outra postura?

Destaque para o nome da operação: Exceptis. Uma clara provocação ao ministro Edson Fachin que determinou a entrada da polícia nas comunidades somente em ocasiões excepcionais. Sem definir o que vem a ser situação excepcional.

 

 

* publicado em O PODER, 11/5/21

 

 

 

 

 

 

Jorge Zaverucha – Mestre em Ciência Politica pela Universidade Hebraica de Jerusalém, Doutor em Ciência Política pela Universidade de Chicago; Professor titular aposentado do Departamento de Ciência Política da UFPE

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