Disparates –

Acompanhar a cena política brasileira não tem sido tarefa nem simples nem agradável. São disparates em cima de disparates pronunciados pelos mais diferentes atores políticos.

Mal estava recuperando-me do disparate presidencial (“quando acabar a saliva, tem que ter pólvora”) eis que meus ouvidos captam a mensagem de um dos candidatos à prefeitura de São Paulo. Boulos afirmou que fazer concurso é uma forma de arrecadar mais para a Previdência municipal e equilibrar a conta com inativos. “Sabe por que a Previdência é deficitária? Porque não se faz concursos. Para a Previdência se equilibrar, tem que ter gente contribuindo, não só gente recebendo. E como não se faz concurso, tem menos gente contribuindo para a Previdência pública. Fazer concurso é uma forma de arrecadar mais para a Previdência e equilibrar a conta com os inativos. É isso que vou fazer”, afirmou.

A princípio pensei que fora uma ironia e tratei de inteirar-me melhor desta ideia mágica. Afinal, o servidor municipal contribui com até 14% para a Previdência, mas isso é um sétimo do que a prefeitura gasta com seu salário. Obviamente do ponto de vista contábil a curto prazo, o déficit previdenciário cai, pois, mais gente estará contribuindo para o sistema. Contudo, a longo prazo o rombo nas contas públicas aumentaria. A fala repercutiu tão mal que Boulos tentou desmenti-la dizendo que foi retirada do contexto. Nada disse sobre como melhorar sua gestão na prefeitura e como isto poderia ajudar a reequilibrar as finanças municipais.

Boulos, tal como Bolsonaro, não entende de economia. Quem seria seu ‘Posto Ipiranga’? Imaginei que sua localização deveria estar na velha esquerda. Esta, apesar de seus sucessivos fracassos, continua a não acreditar em restrição orçamentária. Dito e feito. Um dos gurus de Boulos é o economista Luiz Gonzaga Belluzo. Ele foi um dos pais do Plano Cruzado, depois influenciou Zélia Cardoso de Mello na elaboração do Plano Collor. Também assessorou Dilma Rousseff no que ficou conhecida como a fracassada “nova matriz econômica”. Como presidente do Palmeiras, o economista conseguiu a proeza de mandar, juntamente com sua diretoria, o “verdão” para a segunda divisão do campeonato brasileiro de clubes.

 

 

 

Jorge Zaverucha – Mestre em Ciência Politica pela Universidade Hebraica de Jerusalém, Doutor em Ciência Política pela Universidade de Chicago e Professor titular aposentado do Departamento de Ciência Política da UFPE

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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