OS INDIFERENTES –

Antes do regime militar, iniciado em 1964, embora outros partidos gravitassem no cenário nacional, a política brasileira estava polarizada entre três legendas: a União Democrática Nacional, o Partido Trabalhista Brasileiro e o Partido Social Democrático, criados em 1945.

A UDN possuía base eleitoral em classes médias urbanas e setores da elite. O sustentáculo do PTB era o operariado urbano ligado a sindicatos. Já o PSD abrigava proprietários rurais, altos funcionários de estatais e as correntes mais conservadoras do getulismo.

O eleitor considerava-se petebista, udenista ou pessedista. Vinculava o voto ao seu partido. Sufragava sua opção em função dos bons resultados obtidos pelo partido em gestões passadas e nas promessas plausíveis de realização apresentadas nos programas partidários de governo. Tudo isso registrado em cartório.

 Via de regra, se determinado candidato merecesse crédito e respeito, mas não pertencesse ao partido da preferência ou filiação do eleitor, a opção estaria descartada. Votava-se em propostas, conceitos e ideais do partido.

Estavam eleitos apenas os que obtivessem as maiores votações. Isso mesmo, somente os escolhidos como legítimos representantes da vontade popular, sem artifícios matemáticos para privilegiar candidatos sem votos.

Meu avô era udenista doente e meu pai um pessedista moderado que votou em Juscelino Kubitscheck para presidente. O eleitor era inabalável na sua crença partidária.  É difícil acreditar, mas o lema de cada instituição partidária continha força, crédito e poder de definição.

De tanto ouvir meu velho avô repetir o lema da UDN, ele me ficou gravada na memória: “O preço da liberdade é a eterna vigilância”. A expressão “nem sim nem não, muito pelo contrário” servia de galhofa para oposicionistas provocarem eleitores fanáticos pelo PSD, criticando o fisiologismo e indefinições do partido.

Aí apareceu o segundo Ato Institucional da Revolução criando a novidade do bipartidarismo. Direcionou para a Aliança Renovadora Nacional e para o Movimento Democrático Brasileiro as opções de filiação partidária. Votava-se apenas em candidatos da Arena (situação) e MDB (oposição). Uma polarização obrigatória, porquanto institucionalizada.

Os partidos continuam existindo, é verdade, mas com a diferença de poder transmutar-se em outras siglas com a mesma rapidez que mudamos os canais na televisão. Desaparece quando um escândalo abala sua credibilidade política, mas retorna em seguida abrigando os mesmos fiéis e infiéis filiados, fazendo as mesmas promessas camufladas em roupagens diferentes.

Hoje, as propostas do candidato nem sempre coincidem com as do partido. E se assemelhadas, tampouco importa, pois é improvável que o eleitor as conheça ou delas se lembre. Um candidato proficiente na atividade política obscurece o partido. Torna-se a bengala e a esperança vital para a entidade partidária não sucumbir por falta de representatividade pública.

Daí porque tantos eleitores indiferentes na proximidade da data das eleições. Daí porque tanto voto nulo. Daí a tentativa de desmerecer a Democracia votando em “palhaços” e “símbolos folclóricos”. Daí porque o eleitor não dá mais crédito à política. Está aí o resultado de tanto desrespeito ao brasileiro.

 

 

José Narcelio Marques Sousa – É engenheiro civil – jnsousa29@gmail.com

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores

 

Ponto de Vista

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