OS IDOSOS NÃO FORAM SEMPRE VELHOS – Raimundo Mendes Alves

OS IDOSOS NÃO FORAM SEMPRE VELHOS –

“Respeitar os idosos é abraçar o tempo, honrar a vida e reconhecer a estrada que um dia também percorreremos.”
Provérbio oriental

Há uma silenciosa injustiça que atravessa os dias: a forma como nossa sociedade olha — ou deixa de olhar — para os idosos. É como se o tempo, ao esculpir rugas e tornar os passos mais lentos, apagasse também as memórias da juventude, da vitalidade, da paixão que já pulsou neles. Mas os idosos não foram sempre velhos. Antes de serem aquilo que hoje chamamos de “terceira idade”, eles correram, amaram, sonharam e construíram caminhos pelos quais muitos de nós ainda tateamos.

Falo como alguém que já conta 69 anos de existência. Não são apenas números — são histórias, perdas, vitórias e lições. Como advogado, fui testemunha das mais diversas faces da condição humana. Como mestre em Direito, analisei a norma em sua frieza e, por vezes, em sua humanidade. Como vereador, em meu oitavo mandato, vi de perto as políticas públicas nascerem e morrerem, e senti na pele o quanto o idoso, muitas vezes, é lembrado apenas nas estatísticas ou nos discursos de ocasião.

No entanto, quem nos olha com pressa, quem nos vê apenas como “velhos”, esquece que fomos jovens. Tivemos amores intensos, noites de insônia sonhando com o futuro, inquietações existenciais, ideais pelos quais lutamos. Tivemos coragem. Tivemos sede de justiça. Fomos os que hoje vocês são — e um dia vocês serão o que hoje somos.

Reduzir o idoso à fragilidade física é um erro não só moral, mas civilizatório. Esquecê-los é esquecer de nós mesmos — do que seremos. E quando uma sociedade despreza seus anciãos, ela despreza sua própria memória. Sem memória, não há identidade. Sem identidade, não há futuro.

A Constituição da República, em seu artigo 230, impõe o dever da família, da sociedade e do Estado de amparar as pessoas idosas, assegurando-lhes participação na comunidade, dignidade e bem-estar. Mas não basta o texto da lei — é preciso dar-lhe carne, alma e ação. A política deve ser instrumento de reconhecimento, não de esquecimento.

Nos lares silenciosos, em hospitais ou nos bancos de praças, há vidas inteiras esperando apenas um gesto de escuta, uma conversa sem pressa, um olhar sem julgamento. Há saberes prontos para serem compartilhados, se soubermos ouvir. O futuro será de quem hoje aprender com quem já viveu.

A juventude é um presente. A velhice é um legado. Entre uma e outra, há uma ponte de respeito, empatia e consciência. Que saibamos atravessá-la — com dignidade, enquanto é tempo.

 

 

 

Raimundo Mendes Alves – Advogado, procurador aposentado e vereador em São Gonçalo do Amarante-RN

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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