OS ACIDENTES INVISÍVEIS DO CONVÍVIO HUMANO – Alberto Rostand Lanverly

OS ACIDENTES INVISÍVEIS DO CONVÍVIO HUMANO –

Há lições que não se aprendem nos livros, são ensinamentos que emergem do cotidiano, talhados pelo tempo e, sobretudo, pela observação silenciosa da vida. Muito cedo, ao trilhar os caminhos da engenharia civil, aprendi que os acidentes, em sua esmagadora maioria, não são frutos do acaso, mas sim, consequências diretas do excesso de confiança.

Mas o tempo, esse engenheiro invisível da existência, encarregou-se de ampliar minha compreensão, quando percebi que os acidentes mais recorrentes e, por vezes, devastadores, acontecem nas construções invisíveis das relações humanas.

No convívio com os semelhantes, há uma espécie de engenharia emocional que também exige cálculo, vigilância e critérios, sendo justamente nesse terreno, aparentemente sólido, que surgem as falhas mais perigosas. Pessoas que, com nossa permissão, e, não raro, com nosso incentivo, adentram espaços que jamais ousariam alcançar, e, ao ali chegarem, não raramente montam o Minotauro da vaidade.

Transformam-se. O que antes era simplicidade converte-se em soberba, o que era parceria torna-se conveniência. É nesse ponto que o discernimento se impõe como ferramenta indispensável. Há sabedoria na discrição. Cabe então, àqueles que percebem o “acidente anunciado” reposicionar-se com elegância e firmeza. Tratá-los como o sol.

Reconhecer-lhes a existência, mas manter a distância necessária para não se deixar queimar, porque há calores que não aquecem, apenas consomem, existem brilhos que não iluminam, somente cegam.

O elogio excessivo, por exemplo, muitas vezes não é reconhecimento, mas estratégia, a proximidade repentina pode não ser afinidade, mas conveniência, e a lealdade proclamada em palavras nem sempre resiste à prova dos atos.

O acidente, portanto, não está apenas nos lugares, está, sobretudo, nas pessoas. E os mais perigosos são aqueles que caminham ao nosso lado, compartilham nossos espaços e, silenciosamente, fragilizam as bases da confiança.

Viver, nesse sentido, é também aprender a construir com critério, a manter distâncias saudáveis e a reconhecer que nem toda presença é sinônimo de parceria. Porque, ao fim e ao cabo, a verdadeira engenharia da vida não está apenas em erguer estruturas, mas em saber com quem se constrói, e, principalmente, de quem se deve, serenamente, afastar.

 

 

 

 

Alberto Rostand Lanverly – Presidente da Academia Alagoana de Letras

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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