O VELHO COQUEIRO TORTO – Ormuz Barbalho Simonetti

O VELHO COQUEIRO TORTO –

Por anos e anos ofereci minha sombra, meus frutos e minha imagem que ajudava a embelezar a paisagem da praia da Pipa.

Por anos e anos fui testemunha das constantes mudanças na areia da beira mar, que entre aterros e cavações, criava lindas imagens no lugar onde  nasci.

Por anos e anos protegi  e defendi com meu forte tronco e minhas raízes bem fincadas no chão, a frente da casa onde cresci da força das vagas que rebentam com violência durante as grandes marés.

Por anos e anos fui envelhecendo e naturalmente  perdendo minha resistência, mas não a minha  vitalidade, pois  ainda continuei a oferecer sombra, frutos e a beleza de minha imagem.

Um dia não consegui sustentar o peso de  quem, por anos e anos, limpava minhas  palhas secas, livrando-me dos fungos e insetos que me atacavam e me enfraquecia. Meus frutos, de tempos em tempos, precisavam ser colhidos, pois ao cair, podiam machucar alguém.

Foi aí que tudo aconteceu. No dia 11 de dezembro de 2021, no fim da tarde, meu belo tronco, longo e torto, que a tantos encantou, cedeu ao peso de quem queria só me ajudar a continuar sadio, belo e viçoso.

Quebrei e cai sobre a areia onde um dia fixei minhas primeiras raízes quando ainda era semente. Agora sou apenas um velho tronco apontando para o céu. Certamente vão me cortar e não restará nenhuma lembrança do que eu fui a não ser em fotos e filmagens.

O meu irmão mais velho, que nasceu a poucos metros de mim,  foi criminosamente  morto. Por pura maldade, colocaram óleo diesel  em seu tronco e logo ele foi definhando, as palhas foram secando até que um dia alguém chegou com um machado e o libertou daquela agonia.

Prefiro que façam o mesmo comigo. Não quero ser uma lembrança triste. Prefiro que se lembre de mim como sempre fui belo e viçoso.

Minha imagem estará gravada para sempre na memória dos que me apreciavam, nos milhares de fotografias, filmagens e na lembrança daqueles que me contemplava no amanhece do dia ou no cair da tarde onde minha silhueta contrastando com o por do sol, tantas vezes filmado pelo “PASTORADOR DE CREPÚSCULO”.

Minha imagem, que a tantos encantou, não pode simplesmente se resumir a um velho tronco sem vida apontando para o céu.

Não chorem por mim. Eu estarei sempre presente na lembrança de todos vocês, nas fotos e filmagens que fizeram enquanto eu estava vivo e viçoso com minhas palhas balançando ao sabor do vento.

 

Morador da Praia da Pipa-RN –  Canal no Youtube –  “Praia da Pipa O pastorador de Crepúsculos”

 

 

 

 

 

 

 

Ormuz Barbalho Simonetti – Jornalista, escritor, Presidente do Instituto Histórico e Geográfico o RN

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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