O VAGABUNDO E A LÂMPADA –

 

Em algum lugar piscava um ponto luminoso…

Um tombo aqui, outro acolá…

Vinha sem destino

Um triste vagabundo…

Ansioso por um momento de descanso,

Vem maltrapilho sentar ao pé de um poste…

A lâmpada apagou… acendeu…

Suspirou… sorriu… chorou…

Elevou os olhos ao céu… balbuciou:

“Pai, onde estás ó Pai que não me ouves…”.

Entre suas mãos, a face triste queria expandir seu sofrer…

A lâmpada piscou…

Encostou a cabeça ao poste…

Vencido pelo cansaço dormiu… sonhou…

“Não partas “painho¨, não quero ficar sozinho…

Não quero que sejas morto por balas assassinas…

Um abraço… uma lágrima… um aceno…

Parti…

Por entre o deserto desapareci…

Em meio às tropas combati…

Sofri… passei fome… sede… horrores…

Em cada intervalo entre uma bala e outra,

Vinha à minha mente a fisionomia daquele que era a minha vida…

E vendo tombar meus companheiros

Sentia cada vez mais próximo

O impacto de um projétil sobre meu peito…

A desconfiança entre tudo que nos rodeavam,

Aos poucos ia rompendo meus nervos…

Um ruído… um inimigo?!

Uma voz… um amigo?!

Uma granada… uma explosão…

Diminuía a esperança de um retorno…

………………………………………………

Passaram-se os anos…

Com vida, ia saciando a fome de porta em porta…

Entrei para o mundo do crime…

Roubava… bebia… matava…

Fui preso… espancado…

Assim foi durante anos,

Até que um dia fui posto em liberdade…

… Saí sem destino……………………..”

A lâmpada apagou… acendeu…

Lembrei envergonhado o dia em que desertei do campo de guerra…

Fui o mais ínfimo dos covardes…

Não queria morrer…

Queria abraçar meu filho,

Queria cativar o seu amor…

Ainda agora sofro por não tê-lo ao meu lado…

A fragilidade do meu coração

Sentia a força da saudade…

E em procura de lugar para um descanso,

Vim sentar ao pé deste poste acolhedor…

Senti alguma coisa correr em minhas veias…

Alucinado pelas recordações,

Senti aos poucos a estagnação do meu ser…

A lâmpada acendeu…

Uma pontada… mais outra…

Senti de uma vez o desfalecimento…

Um mundo de visões veio à minha mente…

E entre elas, ali estava o meu filho,

Sorrindo, pulando e cantando os poemas de amor…

Vinha de mãos dadas com ela;

Sim era ela… sua mãe, minha fiel companheira…

Ela havia cuidado do nosso filho…

Obrigado Pai, oh Pai obrigado por teres ouvido minha mensagem…

A lâmpada piscou repentinamente

E parecendo compreender,

Apagou, e não mais acendeu.

(Escrito em um único momento em outubro de 1969)

 

Carlos Alberto Josuá Costa – Engenheiro Civil e Membro da Academia Macaibense de Letras (josuacosta@uol.com.br)

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores

 

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