O INSPETOR DE QUARTEIRÃO E OS FLANELINHAS – Alberto Rostand Lanverly

O INSPETOR DE QUARTEIRÃO E OS FLANELINHAS –

Analisando o Brasil, pode-se constatar serem, algumas profissões que tiveram seu apogeu em determinada época, hoje, praticamente inexistentes.

“Lá vem o Acendedor de Lampiões da rua! Parodiar o sol e associar-se à lua”. Com estes versos, Jorge de Lima descreveu o profissional que, desde o século XIX, diariamente acionava a chama das luminárias, para quebrar a escuridão das noites.

Os Acendedores de Lampiões iniciavam seu trabalho nos finais de tarde, com uma vara especial dotada de esponja na ponta. Ao raiar do sol, apagavam- -nas, limpavam os vidros e reabasteciam as lâmpadas, quando necessário.

Com a chegada da família real ao Brasil, vieram também as carruagens, os coches e cabriolets, veículos que eram utilizados pelos mais abastados. Para o brasileiro, em sua quase totalidade, a única maneira de frequentar os novos meios de transportes era conseguindo o emprego de Cocheiro.

Nas décadas seguintes, a profissão ganhou mais espaço, com o surgimento de novas opções de deslocamento, como veículos coletivos e carroças. Os Cocheiros estavam por toda parte.

Neste mesmo período, surgiu a figura do Juiz de Paz que, eleito para um mandato idêntico ao dos vereadores, possuía atribuições judiciárias e policiais no bairro onde habitava. Era prerrogativa sua, indicar o Inspetor de Quarteirão, que detinha a responsabilidade de zelar pela ordem e sossego de todos os que residissem na mesma quadra onde se encontrava sua própria moradia.

Ao Juiz de Paz competia conceder passaportes, realizar exames de corpo de delito e tomar conhecimento de novos moradores no distrito sob sua jurisdição, o Inspetor de Quarteirão era uma autoridade na porta das casas. Deveria ter mais de 21 anos, sabendo ler e escrever, raridade, àquela época.

Com o advento da energia elétrica, desapareceram os Acendedores de Lampiões. Os Cocheiros foram substituídos por Motoristas de ônibus, taxi, transporte clandestino e, até, particular.  Porém, as figuras do Juiz de Paz e dos Inspetores de Quarteirão parecem ter sido arquivadas nas prateleiras do tempo, ou, melhor, foram substituídos por funções que representam a antítese do que eles praticavam: Os Flanelinhas e os Ladrões de Esquina.

Enquanto, de forma delituosa, os Flanelinhas exigem pagamento por um serviço que nunca lhes foi solicitado e, quando a gorjeta não lhes é entregue, a integridade física do motorista e do carro se expõem a riscos imensos, os ladrões de ponta de rua, como que utilizando uma simbólica roleta russa, se encontram à espera de suas vitimas, para lhes usurpar relógio, celular, carro e, até, a vida.

Se, na antiguidade, a poesia ditava as prerrogativas de determinadas funções, hoje, uma minoria, as vezes bêbada e drogada, é que estabelece essas normas, maculando o direito do livre arbítrio do cidadão. Tudo isto, na cara das autoridades que parecem nada ver e, em consequência, nada fazem.

 

 

 

 

 

Alberto Rostand LanverlyPresidente da Academia Alagoana de Letras

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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