O CARNAVAL NÃO SE LIMITA AOS QUATRO DIAS DE FOLIA – Alberto Rostand Lanverly

O CARNAVAL NÃO SE LIMITA AOS QUATRO DIAS DE FOLIA –

Finalmente, o Carnaval chega, desamarra a rotina, vira o leme dos dias e inunda as ruas com cores em febre, brilhos que piscam como estrelas cansadas de silêncio, batuques que fazem o coração aprender outro compasso. É uma explosão de alegria sem manual, convite coletivo ao disfarce e ao sonho.

E, se essa festa radiosa não acontecesse, só restaria meditar sobre a vida que nos cerca, na expectativa de encontrarmos forças e habilidades para descobrir o que está por detrás das máscaras usadas por nossos semelhantes. Se no carnaval elas caem depois de um ou dois goles de cerveja, no cotidiano tal distinção exige um exercício permanente de percepção e sensibilidade.

Quando, anos atrás, a pandemia tomou conta do planeta, em março de 2020, fomos levados ao isolamento. O medo aportou em nossas vidas, e sorrisos foram apagados por pedaços de tecido colocados sobre boca e nariz, que passaram a ser instrumento de defesa de todos, junto com rígidas medidas de higiene.

Se, por um lado, tal artefato passou a ser elemento de solidariedade, protegendo o usuário e seu próximo, com o passar dos meses vimos várias personalidades verem suas máscaras desmoronarem, mostrando o seu verdadeiro eu: egoísmo, indiferença, ignorância, ganância. Em contraposição, deparamos também, vindo de quem menos esperávamos, com atitudes de solidariedade, gentileza e atenção.

Mas a vida é assim. Relembrei, outro dia, ao ler sobre as ruínas do Templo do Oráculo de Delfos, na Grécia, duas inscrições que nunca esqueci: “Conhece-te a ti mesmo” e “Nada em excesso”.

Alguns milênios depois, tais recomendações são incrivelmente atuais. Na vida tribal que nos foi imposta, temos a oportunidade única de praticar ambas e enxergar que, na vida real, o carnaval não se limita aos quatro dias de folia.

Quando menos esperamos, nos topamos com o nosso “carnaval pessoal”, quando usamos máscaras para atuar no cotidiano, e, pior ainda, temos de enfrentar o “carnaval alheio”, que tem na ganância, na traição e na hipocrisia seus mestres de cerimônia.

No Carnaval, ninguém é apenas quem é. Todos são possibilidade.

 

 

 

 

 

Alberto Rostand Lanverly – Presidente da Academia Alagoana de Letras

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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