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O AZULÃO – Violante Pimentel

O AZULÃO –

Não me refiro ao belíssimo pássaro Azulão, mas sim ao antigo bar Azulão, que existiu em Natal, na Avenida Afonso Pena, desde a década de 70. Encerrou  suas atividades há poucos anos, pegando de surpresa os seus fregueses cativos.

As histórias do Azulão eram hilárias, e tornaram-se conhecidas, até por quem nunca o frequentou.

O Azulão era ponto de encontro de boêmios da cidade, diferenciados, incluindo poetas, escritores, políticos e servidores públicos do alto escalão.

Conta o folclore boêmio da cidade, que um conhecido advogado de Natal, alto funcionário público, e boêmio de carteirinha, fazia do Azulão uma “extensão” da repartição onde trabalhava. Era comum, se ver, no final da tarde, um bedel da repartição onde trabalhava, adentrar ao bar, portando uma pasta com documentos para o “chefão” assinar, como se estivesse em expediente, no órgão público onde trabalhava.

Havia um bloco de boêmios, frequentadores habituais do Azulão Bar, que, de manhã cedo, lá chegavam “para assinar o ponto.” Bebiam antes do início do expediente das repartições públicas, para poderem assinar o livro de ponto,  com firmeza, sem tremer. 

No bar, de manhã cedo, havia sempre uma toalha de rosto limpa, para o boêmio colocar no pescoço, firmemente, segurando com as duas mãos, para parar de tremer, e poder assinar a “folha de presença”. Em alguns, a tremedeira só passava depois que ingeriam alguma bebida.

Como brincadeira mórbida, ao findar o ano, os frequentadores gaiatos organizavam um “bolão”, apostando nos possíveis nomes de quem eles achavam que morreriam no ano seguinte. E quando ocorria o óbito de algum frequentador, era dado baixa no seu nome e prestada uma homenagem póstuma comovente.

Naquela confraria, a vida era levada com bom humor e a saúde dos frequentadores preocupava mais à família do que a eles próprios.

Todos os dias, ali se podia saborear tira-gostos simples, como carne de sol e queijo de coalho assados, feijoada, ou cozido.

Aos sábados, podia-se comer uma boa rabada, dobradinha, sarapatel (picado) ou buchada, alimentos fortes e gordurosos, que davam “sustança” aos boêmios.
Aos domingos, o Azulão era fechado.

Alguns figurões da cidade, aos sábados, costumavam levar a família para o Azulão, onde almoçavam e permaneciam até o final da tarde. A diversão eram as boas conversas, coisa que não faltava.

Podia ter música ao vivo, se algum músico amador, seresteiro, lá chegasse com o seu instrumento musical, de preferência um violão, e soltasse a voz. 

O Azulão era altamente familiar, reunindo poetas, escritores e outras figuras importantes do Rio Grande do Norte. Era a segunda casa de muitos boêmios de Natal.

Muito bem localizado e bem frequentado por boêmios diferenciados, o Azulão era uma seleta confraria, onde se respirava amizade, respeito e cultura.

Figuras ilustres da cidade, de saudosa memória, como Dr. Ney Aranha Marinho, Dr. Fernando Pereira, Dr. Francisco Bittencour, Dr. Cleto Barreto, Gildázio Felipe de Souza e outros, eram frequentadores do Azulão, e às vezes, aos sábados, levavam esposa e filhos.

O Azulão faz parte da memória boêmia da cidade.

 

 

 

 

Violante Pimentel – Escritora
As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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