Um projeto que promete desafiar a engenharia, mudar a paisagem na orla e pode tornar Santos, no litoral de São Paulo, um canteiro de obras de uma solução milionária e inédita em larga escala. A busca por uma proposta para corrigir a inclinação dos icônicos prédios tortos da cidade une a Prefeitura e a Associação dos Condomínios dos Prédios Inclinados (ACOPI).
No fim de março, uma reunião no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) foi marcada pela apresentação de uma sugestão: a criação de um nova modalidade de financiamento que permita contemplar as obras de reaprumo dos prédios.
️ 319 prédios de Santos têm alguma inclinação. Não há risco aos moradores que vivem nos locais, mas também não há garantias a longo prazo que as estruturas se mantenham estáveis.
A ideia é que o banco permita, por meio de financiamento, que o dinheiro chegue aos moradores. Para isso, a Prefeitura de Santos atuaria como terceiro garantidor junto ao BNDES.
❓ terceiro garantidor é uma segurança ao banco de que a dívida será quitada caso o tomador do recurso não honre os pagamentos.
Em entrevista ao g1, o prefeito de Santos, Rogério Santos (Republicanos), explicou que o BNDES ainda não tem um modelo de financiamento para áreas particulares por intermediação pública.
“A gente deixou como ‘tarefa’ para o BNDES desenvolver essa modelagem de financiamento, ver como isso pode ser feito, porque é algo inédito. O modelo de engenharia já foi feito em Santos, mas como pode ser desenvolvido essa linha de financiamento para os condomínios, não”, afirmou.
Um dos modelo de engenharia que mostram que a correção da inclinação dos prédios é possível é o edifício Núncio Malzoni, que era inclinado 2,2° em um dos seus blocos e, 1,8° em outro. As estruturas foram arrumadas nos anos 2000. (veja no infográfico abaixo)
Na época, a obra foi custeada com recursos próprios dos moradores e consistiu em ‘erguer’ o prédio e alinhá-lo com o uso de macacos hidráulicos. Os pilares foram apoiados e, com o prédio suspenso, foi executada uma nova fundação.
O processo foi acompanhado por engenheiros da área, como Paulo Pimenta, que foi contratado recentemente para elaboração de novos estudos em outros quatro prédios na orla.
A inclinação dos prédios tem relação com as características do solo de Santos e as técnicas de fundação empregadas entre as décadas de 50 e 80.
Segundo o engenheiro, a área da orla da cidade tem uma camada de areia de cerca de 10 metros de profundidade. “Depois, vem uma argila marinha muito mole, que foi fruto da sedimentação de sedimentos marinhos durante os últimos milhares de anos e essa argila é muito mole, ou seja, qualquer peso em cima dela, ela se deforma”, explicou.
O solo residual e a rocha ficam abaixo da argila, segundo ele, a aproximadamente 60 metros de profundidade. As construções antigas não chegavam até essas camadas, somente até a areia. Na época, os engenheiros imaginavam que os prédios poderiam descer, porque a primeira camada é mole, mas não imaginavam que poderiam entortar.
“Ninguém pensou que eles podiam se inclinar. E por que eles se inclinam? Porque se você faz dois prédios mais ou menos ao mesmo tempo, um ‘puxa’ o outro e eles se inclinam um em direção ao outro”, explicou.
Além disso, as inclinações podem ter outros motivos, como a sequência em que foram erguidos, e como isso influenciou as deformações no solo e os impactos uns sobre os outros. “É muito curioso isso. Sempre que eu passeio pela praia, eu fico olhando e imaginando qual foi a sequência de construção dos prédios de Santos”.
Paulo Pimenta elaborou novos estudos em quatro prédios tortos da orla de Santos. Ele considerou quatro soluções possíveis em cada um dos edifícios:
Cada alternativa tem vantagens e desvantagens, custos diferentes, e em alguns casos, podem ser combinadas. Além disso, cada prédio tem características que podem permitir ou não cada uma das soluções. “Tem também soluções sem reaprumo. Simplesmente estabiliza o prédio, mas deixa inclinado como está. Ele não inclinar mais”, explicou.
Nas obras do Núncio Malzoni, os moradores não precisaram deixar os apartamentos. E a intenção é que isso ocorra novamente, caso o projeto seja viabilizado para outros edifícios.
De acordo com o secretário municipal de Governo de Santos, Fábio Ferraz, a estimativa de orçamento apresentada ao BNDES foi de R$ 7 milhões a R$ 10 milhões por prédio. O valor foi estimado levando em consideração o custo de R$ 1,5 milhão feito pela administração do edifício Núncio Malzoni anos atrás.
“Só fazendo uma atualização dos valores, a gente chegaria em R$ 7,5 milhões. Naturalmente, cada prédio tem uma particularidade”, afirmou.
A modelagem de financiamento enfrenta dificuldades por duas questões: os condomínios serem privados e de habitação. “Como [o reaprumo] é uma questão social e urbana, o BNDES está estudando de que forma ele poderia fazer esse trabalho junto aos condomínios apoiado pelo poder público municipal”, afirmou o prefeito.
A principal dificuldade para a modelagem de financiamento está associada ao fato dos condomínios serem privados. O BNDES financia, principalmente, obras de infraestrutura no setor público, mas também empresas privadas que prestam serviços públicos, além de cooperativas e associações com projetos em prol da coletividade.
“Não é possível, por exemplo, que o poder público conceda recursos para um empreendimento privado. Evidentemente não é possível. O que é possível? É que eles [prédios] consigam fazer esse financiamento e a gente, de alguma forma como poder público, apoie para que isso consolide, dada a relevância pública”, disse Fábio Ferraz.
O secretário informou que, nesse início dos debates com o BNDES, os prédios associados à ACOPI seriam os primeiros atendidos pelo financiamento. Porém, a iniciativa abriria portas para contemplar todos os edifícios inclinados na cidade.
Procurado pelo g1, o BNDES informou aguarda a apresentação formal de projetos pela Prefeitura de Santos. Segundo o banco, ‘o ente público deverá detalhar, entre outros itens, o projeto de engenharia (para obras civis), orçamento, cronograma físico-financeiro e aspectos jurídicos como regularidade fundiária e licenciamento ambiental’.
Para o projeto ser executado, os condomínios precisam ter os recursos, por meio do financiamento do BNDES, que ainda estuda um modelo envolvendo a prefeitura e a associação dos prédios. Segundo Fábio Ferraz, a reunião que ocorreu na sede do banco em março foi produtiva. “Temos uma lição de casa. Eles fizeram alguns pedidos de informação para nós, e, naturalmente, a gente já está fazendo isso junto com o nosso time da prefeitura”, afirmou.
Ferraz explicou ainda que deve haver mais uma bateria de reuniões até definir se o financiamento será possível. “A gente quer realmente organizar porque é uma modalidade nova […]. O que eu posso falar com muita tranquilidade é que o prefeito pediu para que a gente possa acompanhar esse tema de muito perto e realmente colocar como uma agenda prioritária”, esclareceu.
Atualmente, os prédios não correm risco estrutural. Segundo a Prefeitura de Santos, laudos técnicos são emitidos a cada dois anos. No entanto, a inclinação dos edifícios pode ocasionar problemas no futuro. Por isso, o reaprumo é essencial.
“Um prédio não foi feito para ficar inclinado. O prédio deve ser feito para ficar sempre no prumo. Então, toda vez ele vai se inclinando, vão aparecendo esforços novos na estrutura para a qual ela não foi projetada. Existe um momento em que a inclinação fica tão grande em que o edifício tem perigo de ruir.”, afirmou o engenheiro Paulo Pimenta.
De acordo com ele, todos os prédios que foram estudados ainda têm pelo menos de 10 a 15 anos de margem de segurança. “Dá tempo de se financiar, de juntar dinheiro, fazer poupança, de contratar financiamento e fazer esse estudo todo. Mas, Santos tem que estar ciente que, um dia, um prédio desses vai ficar em situação insegura e aí vai ter que ser interditado e demolido”, disse.
A presidente da ACOPI, Eliana de Mello, explicou que está otimista com a possibilidade do financiamento
“É a hora da gente tomar a frente, fazer alguma coisa. Tem que tirar essa ideia que são prédios que são da orla são de pessoas bem abastadas e que não precisariam [de financiamento]”.
Fonte: G1
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