NOVAMENTE VERÃO –

Começa o verão e a temperatura ambiental aumenta sobremaneira, não somente em razão das mudanças climáticas. Neste ano, aliam-se também às escalas dos termômetros, em alguns graus a mais, os indicadores do humor político e social perante a expectativa de modificações decorrentes das eleições, em 2026, para a presidência da República, governos estaduais e de integrantes do Congresso Nacional.

A energia poupada durante todo o ano é sofregamente consumida no veraneio. Recepções, aniversários, luaus, festas com mesas fartas de vinhos e iguarias variadas em banquetes pantagruélicos. Fofocas, insinuações maldosas, manifestações invejosas maquiadas de bom caratismo; quem está traindo quem, e com quem, etecetera e tal. De tudo acontece no veraneio.

Tanta badalação cria um fato novo atrás do outro, numa velocidade que mal dá tempo de digerir direito o fato anterior. Acordos políticos invadem os alpendres das casas de praia de onde escapolem para os blogs e demais plataformas das redes sociais. Isso sem esquecer das poucas tiragens de jornais ainda em circulação.

O veraneio faz a festa da crônica multimodal, tamanho o volume e a variedade de notícias para todo gosto e a todo instante. Impressiona a rapidez como tudo acontece nestas praias situadas abaixo da Linha do Equador. Veraneio subentende orla marítima em pousadas, hotéis ou casas de praia – próprias ou nas dos amigos.

Ninguém fala: “Este ano vou veranear no Sertão, na minha casa à beira do rio” ou “Mandei ajeitar minha casa perto do açude. Apareça lá no veraneio!”. Veraneio é uma prerrogativa exclusiva do litoral. Assim como os rios, os interioranos no veraneio, também correm para o mar. Alegria, alegria, para todo mundo. Menos para mim!…

No passado, casa de praia era sinônimo de paz, de tranquilidade, repouso, ócio. Agora, representa justamente o contrário. Veranear é um martírio! Por quê?  É tudo em demasia no veraneio. É balbúrdia demais, sol demais, som demais em toda a vizinhança. Areia demais, bebida demais, pele tostada demais e gente chegando de todos os hemisférios para invadir a sua praia.

Tem vento em excesso, maresia em excesso, carros em excesso. Uma loucura! E mais: justamente no final de semana que me proponho descansar na praia é quando a programação de shows da temporada de veraneio está no auge. Aí a coisa fica preta, pois as apresentações nunca terminam em horários civilizados.

As exibições são programadas para atravessarem as noites e adentrarem nas madrugadas até o sol mostrar a sua cara. As bandas tocam num mesmo ritmo, sem intervalo, com idêntica e desmesurada carga de decibéis, do início ao fim de cada espetáculo.

Gente! Eu não sou irracional e tenho consciência de que o peso da idade contribui para tamanha intolerância. Porém, uma noite de sono para mim é inegociável. Quando me roubam uma na casa de praia não dá outra, junto minhas tralhas e volto sozinho para a tranquilidade da cidade.

Natal no veraneio transborda sossego. Transforma-se num paraíso terrestre. Ruas com poucos carros transitando, shoppings e cinemas vazios. Vive-se, na verdade, uma vida pacata. Pesando os prós e os contras cheguei à cristalina conclusão que o bom mesmo é veranear na cidade.

 

 

 

José Narcelio Marques Sousa – Engenheiro Civil

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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