NOSSO QUIPROQUÓS FRANCESES – Tomislav R. Femenick

 

NOSSO QUIPROQUÓS FRANCESES –

 

Em três ocasiões tivemos enfrentamentos com a França. A atual, quando o presidente Emmanuel Macron, propagou a internacionalização da nossa Amazônia e o nosso presidente revidou ridicularizando a primeira dama francesa; a de 1961-1963, na chamada “guerra da lagosta”, quando navios pesqueiros franceses invadiram o espaço marítimo nacional para pescar lagostas e foram enfrentados por navios e aviões das forças de defesa brasileiras; e, finalmente, no século XIX, quando a Guiana Francesa foi anexada ao Brasil, em revide aos ataques do imperador Napoleão Bonaparte a Portugal, então nossa matriz.

Vamos falar desse último fato, o menos conhecido. Sem condições políticas ou técnicas e, ainda, sem recursos financeiros para se iniciar na empreitada colonial, a França só se lançou à América em busca de possessões muito depois dos espanhóis, portugueses e também dos ingleses. Não usaram dos sofismas do ideal cristão e do prazer da aventura. Simplesmente queriam riquezas. A implementação de medidas concretas para a expansão ultramarina francesa, ordenadas pelo governo, deu-se durante o Estado absolutista de Luís XIII, conduzida pelo Cardeal Rechelieu, ministro-presidente do Conselho Real. Deve-se ressaltar que o processo colonizador franco nas Índias Ocidentais foi um acontecimento impulsionado por capitais e empreendimentos holandeses, tal como aconteceu com as explorações coloniais dos ingleses nas Caraíbas e dos portugueses no Brasil.

A primeira tentativa efetiva de colonização francesa nas Antilhas deu-se em 1613, na Guiana, ano em que 160 famílias francesas se estabeleceram na região do rio Oiapoque. Em 1625, quando franceses e ingleses invadiram a ilha de São Cristóvão, já havia colonos franceses estabelecidos em Caiena, para onde foram mais 500, em 1627. Nos anos de 1763 a 1764, 10.446 europeus emigraram para a Guiana Francesa. Em dois anos, 6.500 morreram, 3 mil voltaram para a Europa e somente menos de 1.000 se fixaram na colônia.

Em 1808, quando Napoleão ameaçava invadir Portugal, a família real veiou para o Brasil  e aqui arquitetou um revide, com reforço naval da Inglaterra: no ano seguinte invadiu a  Guiana Francesa, mantendo-a em seu poder até 1817 (até 1815 integrada ao Brasil colônia  e depois ao Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves). Note-se que, quando a França recuperou a Guiana, deu uma nova forma ao seu pacto colonial com as dependências não metropolitanas, que teve por objetivo fortalecer a marinha de guerra e os armadores particulares, explorar racionalmente as colônias, concedendo algumas liberalidades no regime de relações comerciais exclusivas. No entanto, só em 1902, no Governo Campos Sales, é que foi solucionado o litígio da fronteira do Amapá com a Guiana Francesa. Isso depois de muitas delongas. A disputa foi, inclusive, objeto de discursão no Congresso de Viena (conferência das grandes potências europeias que aconteceu em 1814-1815, visando redesenhar o mapa político após a derrota da França napoleônica), ocasião em que a França aceitou recuar os limites da sua colônia até a divisa proposta pelo Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.

Mas nem só de desavenças foram nossas relações. Na grande maioria das vezes as relações Brasil-França foram amistosas e até mais do que isso. Foi em Paris, a eterna cidade luz, que Augusto Severo e Santos Dumont realizaram suas piruetas aéreas, no que o primeiro perdeu a vida e o segundo realizou o primeiro voo dirigido de um objeto mais pesado que o ar. Foi em Paris, que nossos grandes pintores Portinari, Di Cavalcanti, Pedro Américo, Tarsila do Amaral, Anita Malfatti e outros, aprenderam ou aperfeiçoaram a arte de pintar. Ainda hoje, a capital francesa é a favorita de nossos intelectuais e artistas. Era a morada de Celso Furtado e de muitos políticos brasileiros exilados do governo militar e é a cidade preferida Fernando Henrique Cardoso e Chico Buarque.

Não vamos esquecer dos muitos galicismos da nossa língua; palavras da língua franceses que tomamos de empréstimos: abajur (abat-jour), bureau, bufê (buffet); canapé; champignon, chantilly, purê (purée), batom (bâton), boné (bonnet), chique (chic) e “madame”. E como esquecer de Brigitte Bardot e Catherine Deneuve, quando jovens.

 

Tomislav R. Femenick – Mestre em economia com extensão em sociologia e história. Do Instituto Histórico e Geográfico do RN

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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