NATAL E CLARICE –

A mais internacional das escritoras brasileiras, Clarice Lispector (1920-1977), é reconhecida como enigmática, bela e fascinante. No Egito, ao ver a esfinge de Gizé afirma não saber decifrá-la. Demora um pouco, e observa: ela também não me decifra.

A sua presença em Natal ficou marcada por intensa tristeza e, por outro lado, por alumbramento.

Em 1944, escreveu a seu amigo Lúcio Cardoso, dizendo estar hospedada no horrivelzinho Grande Hotel. Sentia-se desorientada em Natalzinho. Era saudade dos amigos do Rio e de Belém, das irmãs e do marido. Em uma cidadezinha sem caráter à espera de um clipper, nova carta ao amigo anota passar doze dias em Natal.

Clarice não entendera nada da nossa cidade, que, na ocasião, estava vivendo uma festa pela chegada dos norte-americanos, com dólares, alegrias, shows de artistas de cinema, inovações. Não deve ter sido convidada para nenhuma celebração.

Também não apreciou as belezas e riquezas de paisagens e pessoas. Provavelmente, não ouviu, no hotel, o piano de Paulinho Lira. Não conheceu intelectuais tão interessantes ou mais que seus amigos cariocas e paraenses. Não viu Câmara Cascudo, Veríssimo de Melo, Américo de Oliveira Costa. Limitou-se a perceber a amabilidade natural dos garçons.

Clarice não viu, à beira do rio, a Fortaleza dos Reis Magos, uma estrela de pedra plantada sobre arrecifes. Não admirou o Potengi, que acolheu o Presidente dos EUA, Roosevelt, vindo no hidroavião Clipper da Boeing, e que no mesmo tipo de avião, pela Panair, a levaria de volta para matar suas saudades.

“Haya” foi o nome recebido na Ucrânia. Que, em hebraico, significa “Vida”. No Brasil, passou a ser Clarice, que quer dizer “luminosa, brilhante”.

A primeira biografia de Clarice Lispector foi escrita pelo macaibense, filho de galegos, Renard Perez. E o retrato fiel ditado e revisado pela biografada. A publicação tem o título de “Escritores Brasileiros Contemporâneos (1964)”. Renard publicou entre longa entrevista pelo Correio da Manhã. Graças ao potiguar, Clarice Lispector foi traduzida em alemão com o seu conto chamado: “Uma Galinha”. A edição original do conto foi registrada na revista “Senhor”, da qual participava o natalizado jornalista Luiz Lobo.

Natal tem poderes ocultos, faz magia. É outra esfinge, difícil de ser decifrada. E decidiu mostrar a ela sua força de encantamento.

O episódio foi narrado por Clarice sobre o título SILENT NIGHT HOLY NIGHT:

 “Em natal, Rio Grande do Norte, acordei no meio da noite tranquila como se estivesse despertando de uma tranquila insônia. E ouvi aquela música de ar que uma vez antes já tinha ouvido. É extremamente doce e sem melodia, mas feita de sonhos que poderiam se organizar em melodia. É flutuante, ininterruptas. Funções como quinze mil estrelas. Tive a certeza de que estava capitando na mais primária vibração do ar, como se o silêncio falasse. O silêncio falava.”

O alumbramento continuou sentido por ela:

 “É de uma beleza incrível impossível de ser descrita, pois não existe palavra que seja silêncio. Não se sente a presença de autor, anjos em grupos incontáveis e pessoais, anônimos como anjos. E conclui: “O quarto do Hotel estava cheio do canto coral do silêncio que se evidenciava”. E eu abençoada desse jeito.”

Natal deu a ela benção e perdão.

 

 

Diogenes da Cunha Lima – Advogado, Poeta e Presidente da Academia de Letras do RN

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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