NATAL, “COVID-19” E O PROCESSO ELEITORAL – Ney Lopes

NATAL, “COVID-19” E O PROCESSO ELEITORAL –

Sem receio de ser acusado de conspirar contra a democracia, achei racional a proposta de adiamento das eleições municipais de 2020, como oportunidade para a “coincidência de mandatos em 2022”.

A negociação política começaria com a aprovação prévia do “recall” constitucional”, que daria o poder de cassar e revogar o mandato de qualquer representante político de conduta improba, ou incompetente.

Significaria vacina contra os atuais detentores de mandatos, sob suspeita. Além disso, o Congresso Nacional se comprometeria a aprovar a inadiável reforma política, eleitoral e partidária.

Infelizmente, a defesa dessa posição enfrentou a resistência de “doutos”, que se arvoraram portadores da verdade jurídica e política, impondo a todos jactância e arrogância. Também se opuseram os “profissionais” da política, que transformam as eleições em negócios privados lucrativos.

Com a nação em “estado de calamidade pública”, o Congresso Nacional desconheceu a milenar figura jurídica do “motivo de força maior”, em cujo conceito insere-se o acontecimento sanitário imprevisto, que justificaria o adiamento do calendário eleitoral.

Prevaleceu a temerária permissão de multidões nas ruas, em contato direto, descumprindo as regras sanitárias, que recomendam o isolamento social.

Neste cenário, o Brasil irá às urnas.

O ex-governador Franco Montoro já dizia, que “ninguém vive na União, ou no estado. As pessoas vivem no município”, considerado o. berço natal da cidadania, que guarda a memória dos antepassados.

Na linguagem da Constituição, as grandes reformas dos municípios são da competência do vereador. O Executivo apenas põe em prática.

A próxima revisão do Plano Diretor de Natal será mudança fundamental para o futuro da cidade. Essa legislação, prevista no artigo 182 da Constituição, influi em todas as áreas (saúde, educação, transportes, edificações…).

Por tal motivo, o vereador deve estar à altura do mandato para não se limitar a conceder títulos honoríficos, requerimentos inconsequentes, ou propostas insignificantes.

A propósito da importância do voto no município de Natal, permita o leitor observação especial.

Historicamente, a cidade tem uma tradição política a ser preservada. Após a instauração da República funcionou em seu território, sistema de verdadeiro parlamentarismo, no qual o intendente municipal (semelhante ao atual prefeito) integrava os chamados Conselhos da Intendência (atual Câmara Municipal).

Natal era chamada “o cais da Europa”, a “sala de visitas do Brasil”, em função da sua privilegiada posição geográfica, próxima da África e do continente europeu.

A memória natalense registra as contribuições de figuras notáveis, como legisladores municipais, administradores, ou formuladores de opinião.

Destacaram-se o médico Januário Cicco, Henrique Castriciano, Juvenal Lamartine, Café Filho, Eloy de Souza, Garibaldi Dantas, Manoel Dantas, Omar O’Grady, Câmara Cascudo e outros.

Em 2021, na revisão do Plano Diretor de Natal, a Câmara Municipal de Natal enfrentará não apenas o desafio do debate de novas propostas, mas também a obrigação de resgatar valiosos estudos e projetos elaborados no passado, a serem atualizados.

O “Plano Palumo” é um deles.

Nos anos 30, já com visão global, esse projeto reformou o espaço urbano da cidade, visando assemelhar Natal à vila de Sagres (extremo sul de Portugal), que pela posição geográfica favoreceu o pioneirismo de Portugal nas Grandes Navegações do século XVI.

Da mesma forma, o objetivo do Plano Palumo (ainda hoje atual) era utilizar a posição geográfica avançada da cidade de Natal e transformá-la em polo de irradiação turística e comercial para Europa e África, através da aviação, que se desenvolvia à época.

A responsabilidade pela construção da Natal do futuro dependerá do comparecimento do eleitor às urnas e do “voto consciente”. Não há justificativa para a omissão, mesmo em tempos de pandemia

. A ausência do eleitor significará simbolicamente o vírus da “Covid política”, contaminando o processo eleitoral.

As consequências fatais serão candidaturas vitoriosas, sem condições pessoais de criação de leis e execução de projetos necessários à reconstrução da cidade, no desafiante período do após pandemia.

 O TSE já alerta: “votar melhor”.

A eleição está nas mãos do eleitor.

 

 

Ney Lopes – jornalista, ex-deputado federal, professor de Direito Constitucional da UFRN e advogado

As opiniões emitidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
Ponto de Vista

Recent Posts

Família de homem assassinado em presídio do RN diz que só descobriu morte dois meses depois

Um homem de 39 anos que cumpria pena no sistema penitenciário do Rio Grande do…

2 dias ago

Justiça Eleitoral realiza atendimentos no Feriadão do Dia Trabalhador no RN; confira locais e horários

A Justiça Eleitoral realiza atendimentos neste feriado do Dia do Trabalhador (1º) e também neste…

2 dias ago

Fim da escala 6×1: mais tempo para descanso e família é prioridade

Mais tempo com a família, para cumprir as obrigações em casa, passear e até mesmo…

2 dias ago

Acordo Mercosul- UE entra em vigor nesta sexta após 26 anos

Após 26 anos de negociações, o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia entra em…

2 dias ago

Suspeito de participar de roubo de R$ 2,5 milhões em joias é preso em Mossoró

Um homem de 31 anos, suspeito de participar do roubo de joias avaliadas em cerca de…

2 dias ago

Professores de escolas municipais de Natal paralisam atividades em protesto por reposição salarial

Aulas em escolas da rede municipal de Natal foram suspensas nesta quinta-feira (30) por causa…

2 dias ago

This website uses cookies.