Categories: Blog

MINUTOS COM RINALDO BARROS: Derrocada do homo sapiens

Derrocada do homo sapiens

Em artigos anteriores, abordei, a voo de pássaro, a história do surgimento da vida em nosso planeta. Lembro que o Homo sapiens sapiens (também chamado de pessoa, gente, homem) surgiu há aproximadamente 200 mil anos atrás, possivelmente na África. Em verdade, deveríamos falar que o que somos hoje é o resultado da intersecção de duas histórias paralelas: a história natural e a história social.

Daí porque a própria evolução deve ser repensada como uma co-evolução. Os Homo sapiens sapiens co-evoluímos em conjunto com as outras espécies, com o meio ambiente e com o cosmos. Ou seja, participamos de um sistema vivo complexo, aberto e em expansão. Voltemos ao começo.

Após a derrocada dos nossos primos, Homo Sapiens neanderthalensis, ficou a impressão de que a nossa subespécie, Homo sapiens sapiens, a exemplo dos demais animais, passaria a relacionar-se com a Natureza como uma unidade harmoniosa. Santa Ingenuidade! No começo, até que era assim. Mas, alguns de nós logo descobrimos o fascínio que é exercer o poder sobre os demais. E as formações sociais tornaram-se cada vez mais divididas.

A ciência comprova que foi na passagem do estágio superior da barbárie para a civilização que, com um maior domínio sobre a Natureza, pôde o homem aumentar sua produção e com isso obter um excedente. Neste momento, nasceu a ganância.

Surge então a propriedade privada, a divisão do trabalho e com ela um salto no desenvolvimento da história. Com a propriedade privada, os produtores não produzem mais em comum para seu próprio consumo, mas individualmente. E se separam do resultado de seu trabalho, não sabem mais de seu destino. Agora produzem para a troca, para a venda. Percebemos que tudo pode virar mercadoria.

Surge a exploração individual da terra e sua posse privada, tornando-a, por conseqüência, uma mercadoria. No seu desenvolvimento, a troca fez surgir o mercador. Alguém separado totalmente da produção que passa a dominar o produto e a produção.

O mercador, como parasita, passa a dominar e acumula grande riqueza e com ela, prestígio e poder. Aparece o dinheiro e a moeda cunhada, instrumento de domínio do mercador sobre os produtores e a produção.

O dinheiro, como equivalente geral, elevou-se à condição de mercadoria especial. Aparecem o empréstimo, os juros e a usura. Logo, o próprio homem, como força de trabalho, virou também mercadoria.

O conflito social entre classes antagônicas levantadas sobre o modo de produzir desenvolve-se como fator subjetivo na condição de motor da história, impulsionando o desenvolvimento da tecnologia, e da competição.

Como ensina Oscar Motomura (motomura@amana-key.com.br), “tecnologia nada mais é do que a extensão de nosso dom de criar”.

Definitivamente, o Homo sapiens sapiens é um ser que cria. É a nossa natureza, nossa essência.

Gradualmente, século após século, década após década, ano após ano, cada vez mais rapidamente, vamos descobrindo mais e mais sobre como tudo funciona.

Mas criamos para quê? Com que propósito, estamos usando o dom de criação? Para que criamos novas tecnologias, novos produtos, novos jeitos de morar, de cozinhar, de movimentar, de transportar, de comunicar?

Imagine o leitor os impactos positivos que poderiam advir com a aplicação do conhecimento novo nas áreas da Biotecnologia (genes), da Neurociência (neurônios) e da Nanotecnologia (átomos).

Essa brincadeira poderia até estar nos levando a criar mais e mais produtos para melhorar a vida e potencializar o conforto de bilhões de seres humanos. Mas, apenas a minoria está sendo beneficiada.

Sem falar na tecnologia a serviço da irracionalidade destruidora das guerras. Guerra também dá lucro.

Com nossa insuperável estupidez, inventamos a barbárie tecnológica (vide Iraque, Síria, Ucrânia, Israel, Palestina e algo em torno de 19 guerras no continente africano; todas com efeitos devastadores).

O que fazer para que não se consolide a regressão moral do homem pós-moderno (egoísta, acanhado, agachado, pequeno, sem grandeza), para o qual somente importa o “Eu” e o “Agora”?

Resumo da ópera: a desigualdade e a ganância resultam na agressão à Natureza, no desvio de recursos tecnológicos – e em nossa própria capacidade criativa – para a busca do lucro máximo e do consumo supérfluo, motores da derrocada do homo sapiens (assim mesmo, com minúsculas).

 

Rinaldo Barros é professor – rb@opiniaopolitica.com

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
Ponto de Vista

View Comments

  • Caro Professor
    Inicialmente quero dizer que me impressiona a capacidade gigantesca que possui de transitar tão bem por diferentes épocas da História da Humanidade.
    Desde o surgimento da espécie Humana até o desenvolvimento da tecnologia ....
    Realmente também me pergunto: Qual(is) o (s) verdadeiro (s) por quê (s) de tantas criações ???
    Será que essa(s) resposta(s) está(ão) na Estupidez Humana ???
    Gostaria de saber seu ponto de vista .
    Forte abraço!

Recent Posts

COTAÇÕES DO DIA

DÓLAR COMERCIAL: R$ 5,1190 DÓLAR TURISMO: R$ 5,3240 EURO: R$ 5,8330 LIBRA: R$ 6,8250 PESO…

16 horas ago

Prompt injection: entenda o ‘código secreto’ que professor usou para flagrar uso de IA em trabalho

Um professor universitário viralizou nas redes sociais ao contar que reprovou 32 de 35 alunos…

16 horas ago

Conselho autoriza pagamento de R$ 13 bilhões do lucro do FGTS a 138 milhões de trabalhadores

O Conselho Curador do FGTS autorizou o pagamento de R$ 13,04 bilhões relativos ao lucro do Fundo de Garantia…

16 horas ago

Açude rompe e destrói estrada e plantações no interior do RN

O açude Outeiro, um barragem particular na zona rural de Canguaretama, distante cerca de 75 km…

16 horas ago

Menina de 2 anos morre afogada após cair em balde no quintal de casa em Natal

Uma menina de dois anos morreu afogada na noite desta segunda-feira (27) após cair dentro…

16 horas ago

Adolescente suspeito de matar homem em hotel de João Pessoa já foi alvo de 17 boletins de ocorrência, diz polícia

O adolescente suspeito de matar Washington Rodrigo, de 33 anos, encontrado morto em um quarto de…

16 horas ago

This website uses cookies.