José Narcelio Marques Sousa

Diante de tantos exemplos de brigas familiares, em decorrência de partilhas de heranças nas barras da Justiça, eu tomei uma decisão acertada na vida: fazer meu testamento enquanto gozasse de lucidez suficiente para tanto. Isso aconteceu uma década atrás.

Angustiava-me a imagem de filhos, netos e agregados a brigar por um naco qualquer de legado, que nem eles próprios tinham noção no que consistia. Bens esses, que certamente eu não os levaria comigo, pois nem caixão possui gaveta, nem mortalha bolso.

Reunida toda a documentação necessária para tanto, qual não foi a minha surpresa: descobri não possuir o patrimônio avantajado que imaginara. Nada de ouro nem prata, castelos, fazendas, glebas de terra ou apartamentos duplex ou tríplex, aqui, ali ou alhures. Nenhum sítio, ações, joias, sequer, riquezas armazenadas em caixas fortes de bancos. Quanta decepção!

Como fora possível eu não haver atinado para tal descalabro? Como ocorrer de eu não pavimentar o meu futuro? Logo eu, que me julgara um sujeito tão previdente? A depressão não se estabeleceu por completo, porquanto ainda restar minha poupança para evitar a possibilidade do desastre pecuniário ser total. Isso mesmo! A reserva feita, religiosamente, a cada final de mês, haveria de ser polpuda. Nela, eu guardara uma parcela do que ganhara ao longo de anos de trabalho.

Com os nervos à flor da pele, busquei as cadernetas escondidas e protegidas da curiosidade alheia. Com receio de nova surpresa desagradável, observei que tudo estava lá, dentro dos conformes. Entretanto, o valor é que não condizia com a expectativa. Fatores diversos como mudanças de planos econômicos, quedas em bolsas de valores, desvalorizações da moeda, altas do dólar, recessões, inflações, crises políticas, tudo contribuiu para arruinar minha suada economia.

Resultado: não compensaria testamentar o valor. Por estar aquém do esperado, tal quantia só geraria discórdia e ressentimento. Então, o que fazer? Pensei em relaxar e gozar. Não como sugeriu certo político, mas, no sentido literal do termo. Daí, eu relaxei para gozar o resto dos dias, sem lamentar gastar o quinhão disponível.

Busco a paz e a tranquilidade de uma vida saudável, fugindo de grandes aborrecimentos e contrariedades. Sem ser usurário ou esbanjador, aprendi a investir comigo, naquilo que satisfaça meus modestos gostos e pequenos caprichos.

O isolamento é algo destrutivo, ao passo, que o contato com velhos e novos amigos é salutar. Como também é saudável participar do convívio e de conversas entre jovens, amigos dos filhos, para ouvir suas experiências na vida.

Explorar uma mania é recomendável e divertido. Sempre é tempo de retornar à sua religião, pois reconforta. Ajuda no relacionamento, exercitar a proposta de S. João Bosco: “Do próximo, ou falar o bem ou calar a boca!”. Por último, não fazer caso do que digam de você. Afinal, a sua história está feita. Boa ou má é a sua história.

Não será um bem material herdado, a ativar minha lembrança na memória de entes queridos. É mais provável que isso aconteça, ao recordarem de um conselho, um exemplo ou uma atitude não contido em documentos ou em fotografias.

Para mim, reconfortaria ser lembrado pelas boas ações, que por acaso eu as tenha praticado. Não imagino melhor legado para integrar meu testamento.

José Narcelio Marques Sousa é engenheiro civil.

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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