MENINA DE USINA –

A casa que agora a acolhia era bem melhor que a anterior, da usina onde o seu genitor trabalhou por anos a fio e especializou-se em mestre caldeireiro.

As tardes na vila agroindustrial eram de liberdade; de brincadeiras no pátio, sob o sol e o perfume adocicado que soltava das chaminés. Esquálida, cabelos cacheados e puxando para cor de mel, como se fossem lavados cotidianamente com o primeiro produto das moagens da fabrica. Tinha por amigas todas as garotas “do seu tope”, umas já desasnadas e outras broncas de tudo.

Um dia a pacatez do arruado foi quebrado pelo ronco do motor de um carro grande, que conduzia a família do novo senhor daquelas terras e do equipamento fabril, para um final de semana em contato com a natureza. A sua curiosidade foi maior do que as recomendações da mãe, para não incomodar o repouso dos patrões e da sua filharada. Avançou. Viu que uma das meninas, mal descera do transporte, já montava uma sedutora casa de bonecas em um dos alpendres da alva vivenda colonial. Lançou sobre a cena um olhar de oferta para integrar a brincadeira, no que foi compreendida pela senhorinha, que a chamou com um aceno, imediatamente obedecido. A partir de então uma inocente e firme amizade foi celebrada entre as duas crianças, que perdurou pelos anos seguintes, com encontros para brincadeiras frugais em férias e feriados, épocas de traslado da turma rica para as glebas dos canaviais.

A idade trouxe para as duas a adolescência, com mudança de comportamento por parte da citadina, que não ia mais ao campo com frequência, até abandonar de vez aquelas viagens. O selo do distrato afetivo entre as duas ocorreu com nova mudança do mestre caldeireiro e família para usina de outro Estado. Fincou-se nos estudos, até graduar-se e transpor a austera porta concursal, para exercer importantes funções no Judiciário, onde, anos adiante, foi procurada por uma aflita senhorita, cabelos encanecidos e face carcomida pelo sofrimento, que clamava celeridade em um processo que lhe permitisse usufruir do único bem deixados pelos pais, após a falência: um casinha em bairro mediano do Recife. Era ela, a sua amiguinha de infância, agora posta na soleira da miséria. Sem soberba e sem coragem de identificar-se por inteiro, atendeu ao pedido da solicitante angustiada.

Preferiu guardar apenas as puras e boas lembranças. O cheiro doce da usina, as brincadeiras…

IVAN LIRA DE CARVALHO – Professor e Juiz Federal

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Ponto de Vista

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