MEMORIAL A ARIANO NO ROMANCE D’A PEDRA DO REINO – Luiz Serra

MEMORIAL A ARIANO NO ROMANCE D’A PEDRA DO REINO –
Imponente a Pedra do Reino, na realidade duas eretas estruturas rochosas, de 30 e 33 metros, na penedia da Serra do Catolé, município de São José de Belmonte, circunscrito ao sertão pernambucano. No ano em que morria Virgulino Lampião, 1938, um “iluminado” bem-aventurado sebastianista, que se autodeclarou rei, do alto de sua soberbia extremada.
Encantou-se o paraibano Ariano pela estória vivenciada pelos seguidores do rei João Antônio dos Santos, que no trato de inconcebíveis excentricidades quando “decretou” ser preciso tingir os blocos de pedra com sangue humano. Seguiam-se ritos de absoluto desprezo pela racionalidade além de completa perda de juízo do monarca da seita indizível. Naquela altura os sectários daquele reino sem juízo eram muitos com suas famílias e mesmo crianças eram sacrificadas no fio da lâmina em noites de desespero pelos muitos aluados mentais. Era “desígnio real” de salpintar de vermelho vivo a pedra sagrada.
Uma alma liberta que se desesperou com tamanha crueza desceu célere pelos matos até o sopé do serrote e abalou-se até as autoridades policiais de Belmonte. A nova cena da tragédia sertaneja seria consumada logo. O choque entre os soldados que antes subiam temerosos, tais quais as forças que se atracaram no âmago trágico do reino de Canudos em 1897. Advieram fuzilamentos e degolas, os “defensores” da pedra do reino foram dizimados. Consumou-se uma nova Canudos, outra Vendeia brasileira; se vivo, repetiria o notável ensaísta Euclides da Cunha.
Em 1971, Ariano ressentiu o seu drama pessoal em mais aquele escrito com tintas igualmente de sangue. Estravam na cena, personagens rememoradas da juventude, o subversivo Quaderna, a poeira generosa de Taperoá, a saga do retorno obstinado na espera salvífica do jovem Dom Sebastião. A propósito, o tempo ainda hoje segue convicto e o
sentimento sebastianista ainda vive a cada Cavalgada da Pedra do Reino, cultura do povo a cada ano, como memorial àqueles puros devotos que foram sacrificados evocando o retorno do estimado el rei.
A consagrada obra do mestre Ariano, o Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta saiu a lume em 1971.
O autor paraibano radicado em Recife nos legou obras distintas da cultura nacional, como o Auto da Compadecida, de 1955, a que o crítico teatral Sábato Magaldi expressou ser considerado “o texto mais popular do moderno teatro brasileiro”.
Ariano cedo vivenciou seu drama pessoal em 1930, após a Revolta de Princesa, após a morte de João Pessoa, quando seu pai, ex-governador paraibano, acabou assassinado com tiros pelas costas no Rio de Janeiro na cena do governo revolucionário getulista entrante. Ariano contava então apenas com três anos de idade.
A sua inquietação no percorrer de sua existência foi exatamente o assassinato de seu pai.
No discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, em 9 de agosto de 1990, assim o mestre expressou, comovido:
“Posso dizer que, como escritor, eu sou, de certa forma, aquele mesmo menino que, perdendo o pai assassinado no dia 9 de outubro de 1930, passou o resto da vida tentando protestar contra sua morte através do que faço e do que escrevo, oferecendo-lhe esta precária compensação e, ao mesmo tempo, buscando recuperar sua imagem, através
da lembrança, dos depoimentos dos outros, das palavras que o pai deixou”.
Sempre a lembrar a factual Pedra do Reino de Ariano, a tragédia pessoal incontrolada, inequívoca história que se perpetuou em suas memoráveis obras literárias que viraram sentidas peças teatrais e abarrotadas salas de cinema.
Luiz SerraProfessor e escritor
As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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