MARIA APARECIDA –

Quarentena grande, mais de três meses e meio dentro de casa, pensamentos bons e ruins, sem alternativas, pego o carro e vou para as ruas, sem destino, Cotovelo? Talvez, sigo e continuo sem destino. Nas proximidades do viaduto que dar acesso para Av. Roberto Freire decido ir até a cidade de São José de Mipibu para matar as saudades, pois há algum tempo eu não ia por lá. Passei pela fazenda Boa Vista que tinha sido de meu avô e resolvi ir até a fazenda de meu primo que também é escritor, Paulo Coelho mas, sabendo que ele não estava por lá. Entrei, demorei um pedaço, vi o gado no pasto, tomei uma boa água de coco e resolvi dá um pulo até a fazenda do meu amigo Vivo que fica em Laranjeiras dos Cosme, pois fazia muito tempo que não o via. No caminho me deu um estalo no juízo e resolvi passar na fazenda de Maria Aparecida.

Maria Aparecida de Souza ou Maria de Nezinho, assim ela é conhecida lá pras bandas de Laranjeiras dos Cosme, lugarejo pertencente ao município de São José do Mipibú.

Maria, mulher bonita, letrada, pedagoga e advogada, solteira por convicção, com pavor a marido e já nos cinquenta, lembra muito a Fafá de Belém até na gargalhada. Mas o que tem de bonita e alegre tem também de braba, os homens da região têm por ela todo respeito.

Certo dia, perguntei a Maria porque ela não queria um casamento. De pronto me respondeu.

– Eu já tenho um cachorro que bagunça minha casa, um papagaio que fala o que não deve um gato que sai todo dia e volta à hora que quer. Me responda! Para que diacho eu quero um marido?

Quando fui chegando, Maria me viu, deu boa gargalhada e foi falando: não tem porra de pandemia não, vem cá! E me abraçando foi dizendo.

– Amor, você por aqui. Que coisa boa. Vamos entrando.

Dei-lhe um grande abraço, um beijo na face e aproveitei a oportunidade para sentir o perfume dos seus longos cabelos que me envolveram até os ombros.

Sentado no alpendre da casa grande depois de tomar café, procurei puxar conversa.

– Maria me conta as novidades, como estão as coisas?

– Olha Guga, as coisas estão muito difíceis, este pais é um país ingrato. Um país que não tem futuro para os jovens, nem amparo para os velhos. Me diga uma coisa, você votou no Bolsonaro?

– Votei Maria, votei porque não me deixaram opção, no primeiro turno votei em Álvaro Dias.

– Olha Guga, este país é uma loucura só, saímos de uma penitenciária cheia de ladrões e criminosos para entrarmos em um manicômio que não vejo saída, a saúde do povo, – fez um gesto mordendo os lábios e balançando a cabeça – estão brincando com isto? Que sacanagem Guga, o ministro da saúde tem que fazer a vontade do presidente, um pau mandado, e o povo nas ruas morrendo e aprendendo.  O brasileiro está perdendo a auto-estima. O povo está tão desacreditado com político, que o prefeito Chico de Honório tava fazendo um discurso na inauguração do Posto de Saúde, lá pras tantas saiu com esta.

– Povo da minha terra, durante toda a minha vida pública, coloquei sempre a honestidade acima de qualquer interesse político! Vocês podem ter certeza que neste bolso e batendo no bolso do paletó – nunca entrou dinheiro do povo.

Compadre Antonio de Maria Rosa não se conteve e gritou.

– Paletó novo hein, prefeito?

O papo ia indo sobre as mazelas dos políticos, quando chega um cidadão e fala para Maria.

– Dona Maria, vosmicê pode tirar a queixa contra Manuelzinho? Ele é um rapaz tão bom.

– Posso não seu João, isto é para ele aprender a respeitar mulher sem macho.

– Espera aí Maria, você esta processando o Manuelzinho? Porquê?

– Estou sim Guga, estou processando por assédio sexual.

– Assédio sexual? O que foi que o Manuelzinho fez com você?

– Teve a petulância de passar por mim e dizer – Dona Maria, que cabelos cheirosos.

– Só isto Maria, só por isto? E isto é assédio sexual

– Você está esquecendo que ele é anão?

Olhando nos seus belos olhos, percebi que ela estava brava. Aproveitei para as despedidas.

– Amiga, a conversa está boa, mas ainda vou até Monte Alegre lá na fazenda de Coronel Guerreiro, mas antes dou uma passada lá por Vivo, um beijo amor. A sua sorte e o meu azar, são minha mulher viver pegando no meu pé.

– Tchau querido, volta sempre ta? (Dando uma sonora gargalhada).

 

 

 

 

Guga Coelho Leal – Engenheiro e escritor, membro do IHGRN

As opiniões emitidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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