Quem tem mais de 50 anos de idade deve guardar na memória o sucesso alcançado pelos concursos de Miss Brasil nos anos 60, 70 e 80. Deve recordar também a expectativa que tomava conta do país, durante o desenrolar do processo de escolha da representante nacional para a disputa anual do título de Miss Universo.

Com igual exatidão, deve lembrar o enorme contingente de candidatas que citava “strogonoff” como o seu prato predileto e, “O Pequeno Príncipe”, como o mais importante livro já lido. Mencionar a obra de Antoine de Saint-Exupéry consistia na fórmula ideal para insinuar alguma cultura a louras, ruivas e morenas, durante questionamento específico do júri do certame.

Embora banalizado na preferência das misses de antigamente, o “O Pequeno Príncipe” não é o tipo de leitura para se estereotipar. A obra foi escrita em 1943, quando do exílio do escritor nos Estados Unidos, época em que visitou o Brasil. É o livro francês mais vendido no mundo, com tiragem aproximada de 80 milhões de exemplares em cerca de 500 edições.

Depois da Bíblia, é a obra literária mais traduzida do planeta com publicações em 160 línguas ou dialetos. O título bem que pode sugerir, mas não é um livro apenas para crianças. Tem profundidade suficiente para nos fazer refletir sobre a vida e nossas atitudes, a qualquer tempo e com qualquer idade. Quem já o leu concordará com minhas palavras; quem ainda não o conhece terá uma grata satisfação ao se deparar com uma leitura leve e envolvente.

Mas, não foram esses detalhes que me fizeram reler, pela enésima vez, “O Pequeno Príncipe”. A motivação decorreu de citação de um sacerdote, durante pregação religiosa, demonstrando sincera admiração pelo trabalho do escritor francês.

 Na oportunidade, utilizou o conteúdo de determinado capítulo do livro para reconfortar uma família sofrida em razão de perda recente de um ente querido. Envolver-se com a singeleza metafórica daquele ensaio sobre a natureza humana, repleto de sutil subjetividade, é um exercício cativante.

Na leitura, é comum encontrarmos citações aleatórias do enredo que nos despertam a atenção. Caminhos secretos surgem de aberturas, até então desconhecidas. São atalhos para novas reflexões, com interpretações totalmente diferentes do texto. Isso o transforma numa agradável caixa de boas surpresas.

Já li e ouvi manifestações ácidas sobre a mais conhecida obra de Saint-Exupéry. Tacharam-na de piegas, enfadonha, infantil, chata, mas isso nunca diminuiu sua aceitação pública nem afetou o sucesso de vendas. Por uma simples razão: com quase 75 anos de existência, o “O Pequeno Príncipe” é uma leitura atualizada, que toca a sensibilidade de crianças e de adultos.

Voltemos à citação do clérigo que me fez discorrer sobre a obra-prima de Exupéry. Trata-se do diálogo de despedida do pequeno príncipe, já no final do livro. Em resumo, ele fala ao seu interlocutor o seguinte:

Quando olhares o céu de noite, tu verás estrelas e a mim, porque habitarei uma delas e estarei rindo. E será como se todas as estrelas te rissem! Então terás estrelas que sabem rir! E quando te houveres consolado (a gente sempre se consola), tu te sentirás contente por me teres conhecido. Seremos sempre amigos. Para me encontrar, basta olhares para o céu e saberás que eu estarei lá, rindo. Então terás vontade de rir comigo”.

Eis a magia de o “O Pequeno Príncipe”.

José Narcelio Marques Sousa – Engenheiro civil e escritor – jnsousa29@gmail.com

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